terça-feira, 16 de novembro de 2021

Cadeiras vazias

 



Depois de vinte meses, finalmente as cadeiras ficaram vazias. Por mais de seiscentos dias, meus dois filhos ocupavam esses lugares, divididos entre aulas online, jogos e vídeos do YouTube. Aliás, obrigada Steam, obrigada Discord. Centenas de dias de interações através de telas, enquanto eu passava de um lado para outro do apartamento, fazendo faxina, cozinhando, preparando minhas próprias aulas e, claro, acompanhando o desenrolar da pandemia pelas notícias e canais de divulgadores científicos. Enquanto isso, e principalmente lá por maio desse ano, a maioria dos colegas e amigos dos meus filhos voltavam ao propalado "novo normal": escola de forma presencial, futebol, passeios pelo centro da cidade, até mesmo algumas festinhas. Eles nunca pediram para sair; ao contrário, diziam que apenas voltariam para o "mundo exterior" quando vacinados com duas doses. 

Semana passada, quando essas cadeiras ficaram vazias, também senti um vazio enorme: foi uma convivência muito próxima, por bastante tempo. E, subitamente, eles não estavam mais ali. Mas não foi o sentimento de solidão que mais me tocou, e sim a constatação de que eles perderam muito e que não precisava ter sido assim. Até me culpei, matutando se deveria tê-los deixado vivendo como se nada acontecesse, como se a pandemia fosse algo distante e que jamais nos atingiria de maneira mais séria- como grande parte das famílias fez, desde o início. Porém, acredito que o ponto é outro: e se todos, mas todos mesmo, tivessem levado a sério o isolamento e distanciamento social lá no início de 2020, por apenas catorze dias, que é o ciclo infeccioso da doença? Com certeza, essas cadeiras teriam ficado vagas muito tempo antes. Quantas interações e experiências meus filhos deixaram de ter porque simplesmente parece que não temos quase nenhum senso de coletividade?

As notícias sobre o novo epicentro pandêmico, a Europa, nos mostram que a falta deste senso não é exclusividade do Brasil. Na Áustria, a vacinação estagnou em 60% da população e os índices de contaminação explodiram. O governo determinou, então, um lockdown para os não-vacinados. Eis que, no outro dia, formaram-se filas de pessoas em busca da vacinação. O fator que levou essas pessoas a finalmente buscarem a imunização não foi o fato de que a pandemia voltou a todo vapor por lá, lotando novamente os hospitais e interferindo na vida coletiva, mas sim uma medida que as afetou em sua individualidade. Não poderiam trabalhar, passear ou ir a lugar algum sem tomar a vacina. 

Os epidemiologistas cansaram de explicar que, numa pandemia, é preciso que existam medidas de abrangência coletiva. Isso se aplica às vacinas: só acontece uma imunização suficientemente efetiva se a grande maioria da população está vacinada. Da mesma forma, o uso de máscaras é mais eficiente se todos as utilizarem, de forma adequada, cobrindo a boca e o nariz completamente. São muitos os "ses" que aparecem quando você pensa que poderia ter sido diferente: se as pessoas não tivessem aderido ao discurso do "saúde X economia"; se a pressão por uma política de seguridade social e econômica durante o período do isolamento fosse maior sobre os governantes, no lugar dos protestos pela reabertura dos comércios; se existisse um esforço coletivo para erradicar as notícias falsas e as mentiras que circulam pelas redes sociais, levando muitos à exposição ao perigo ou a negação da vacina; se os responsáveis pelas crianças e adolescentes entendessem que, enquanto permitem que seus filhos saiam e interajam normalmente como se não houvesse amanhã, há muitos que abrem mão de satisfações e prazeres momentâneos, permanecendo em casa, porque entendem que isso é o certo a se fazer quando se vive em sociedade; se realmente existisse uma sociedade comprometida com a verdade, a saúde e o bem-estar de todos...

Talvez, na próxima pandemia. 

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