sexta-feira, 31 de julho de 2020

Somos todos palhaços?

A reportagem do jornal local conta a história do professor que se “reinventou” durante a pandemia, dando aulas de Educação Física de uma forma inusitada e inovadora, utilizando um aplicativo de edição de vídeo e encarnando diversos personagens do universo infantil, como o palhaço que ensina a virar cambalhotas.

Circo Mágico da Leitura: "Escola não é Circo Professor não é ...

Tornou-se constante esse tipo de notícia desde que, professores e alunos, confinados e afastados devido à pandemia, precisaram alterar suas rotinas, mas manter as aulas de forma remota. É uma tal de reinvenção e inovação sem limites, apesar do grande contingente de crianças e adolescentes sem acesso à internet e a dispositivos adequados para acompanhar as atividades propostas.

Surge a história da professora que disponibiliza aulas impressas em um varal em frente a sua casa, com direito a lápis de cor e outros materiais, bancados pelo salário modesto. Ou a educadora que, arriscando a própria saúde, vai de casa em casa levando as atividades para os alunos que não conseguiram acessar as aulas on line. Heróis, propala a mídia e compartilham os crentes na "educação por amor".

Mas inovar não basta: é preciso estar disposto a encarnar um papel que pode ser invasivo e desconfortável. Somos apresentados ao conceito de aulas síncronas, que são aquelas que acontecem em tempo real, para possibilitar a interação dos alunos. Nesse caso, o professor pode, muitas vezes, ser o palhaço sem figurino:enquanto se esforça para explicar o conteúdo de forma acessível, os alunos estão ligados em outra "janela", assistindo a algum vídeo, curtindo uma música ou jogando. Tenho ouvido relatos de colegas que, sem o hábito de gravar vídeos e ver a própria imagem, sentem-se profundamente invadidos e desconfortáveis diante da nova exigência.

No entanto... A educação não é sacerdócio. Para ser um bom professor, não basta amar o que faz. Isso é o que o discurso de coach quer fazer com a profissão: trabalhe enquanto eles dormem, estude enquanto eles descansam, atualize-se enquanto eles se divertem. Se você realmente tem o dom de ensinar, vai superar todas as dificuldades e fazer com que todos aprendam-mesmo remotamente!

E dá-lhe aplausos para o educador. Porém, vocês batem palmas para o professor na sexta à noite, e no sábado pela manhã ele precisa preparar uma nova aula. E editar um vídeo. E responder aos questionamentos dos pais no grupo. E preencher a planilha com porcentagens de alunos que participam ou não das aulas, de quais delas, e com que frequência. Quase sempre, esse mesmo professor necessita fazer uma mágica contábil no mês, para pagar as contas, visto que seu salário está atrasado ou parcelado. Inclusive, para bancar a internet que utiliza ao dar aulas na plataforma on line.

Palmas são comoventes e bem-vindas, mas isso não é valorização do professor. Valorização é pagar um salário decente em dia. É dar condições mínimas para um trabalho eficiente. É proporcionar formação continuada que realmente capacite os profissionais para os desafios constantes.


O ensino remoto, a pandemia e a educação do faz de conta – SindoIF

Estamos aprendendo com a pandemia, sim. Novas tecnologias, aulas remotas, aplicativos, edição de vídeo. No entanto, por mais que o professor se esforce e supere limitações, ele não dá conta das desigualdades sociais que se refletem na estrutura da escola pública. Cinco alunos meus acessam aulas on line. Destes, apenas um dispõe de computador para realizar as atividades. Tentei realizar algumas atividades que elaborei, no celular. É muito ruim. Não é o ideal. E não há aplicativo de edição de vídeo ou peruca de palhaço que modifique isso.

 

 

 


quinta-feira, 23 de julho de 2020

O país que chumba as bichas



Minha avó paterna fazia um ritual curioso para debelar as “bichas” dos netos. Bichas, na época, era o nome que os temidos vermes que acometiam o intestino das crianças recebiam. Consistia em sentar o “doente”, imóvel, numa cadeira, cobrindo-o com um pano branquíssimo (tinha que ser branco). Em seguida, a avó equilibrava na cabeça do vivente um copo cheio de água. E então vinha a parte mais perigosa: derramar chumbo derretido dentro do copo. Fazia um barulho enorme, pipocando e formando bolinhas. Nós, a turma de crianças da família, espiávamos por entre as frestas da porta, pois o “atendimento” precisava ser individual. Na primeira vez que presenciei o ritual, perguntei aos mais velhos o que era aquilo, e recebi a resposta, solene: “estão chumbando as bichas” do fulano.

O chumbamento de bichas se transformou em (um) dos meus pesadelos da infância. E se a avó derramasse aquele chumbo derretido, que devia queimar a pele, no braço ou no rosto de alguém? Eu não sabia o que fazer para que as bichas não me atacassem, então rezava para não precisar passar pela "cura" que me parecia mais perigosa que benéfica.

Até que fui salva pela professora de Ciências. Durante um bimestre, estudamos várias parasitoses, seus causadores, formas de contágio e aquela palavra nova e deliciosa: profilaxia. Bem no final de cada aula, a professora e o livro didático reforçavam como fazer para evitar tais doenças: higiene pessoal e dos alimentos, evitar andar de pés descalços, entre outras medidas simples. Ufa. O chinelo havaianas, o sabonete e uma alface bem lavada me livraram do chumbamento.

E então, quase quarenta anos depois, o benzimento da avó me vem à cabeça a cada vez que um novo e milagroso medicamento contra a COVID-19 aparece e é alardeado por pessoas que, infelizmente, parecem ter faltado às aulas básicas de Ciências. Assim como o benzimento, ouço os defensores da cloroquina e ivermectina (inclusive médicos) que dizem: mal não vai fazer, então, por que não usar, visto que não há outra alternativa?

Bem, ninguém nunca morreu por ter sido benzido com arruda e água benta. Mas pode ter deixado de fazer um tratamento crucial, para uma doença séria, acreditando numa solução mágica. Da mesma forma, se acreditamos que os medicamentos sem comprovação científica nos protegem do coronavírus, a tendência é relaxar com as medidas comprovadamente eficazes: etiqueta respiratória, higiene das mãos e distanciamento social.

Diante de uma doença nova e que tem abreviado milhares de vidas, é normal recorrer a soluções simples para problemas complexos. A atitude do presidente do Brasil funciona nessa lógica. Talvez por isso ele esteja disposto a protagonizar cenas como a do último final de semana, na qual ergueu uma caixinha do medicamento cloroquina, (assim como minha avó erguia o copo de água antes de colocar sobre a cabeça do neto), enquanto a plateia exaltava “a cura” (no caso de Bolsonaro, é muito útil alardear um remédio que faça com que a população se imagine imune, para reabrir escolas e comércios).

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Este é o resultado de um país que decidiu desvalorizar a Ciência: médicos prescrevendo remédios sem eficácia comprovada, governantes distribuindo kits deles como milagres. O desprezo pela educação causa outro efeito: uma população que acredita em qualquer informação que confirme seus desejos, sem ter o senso crítico para questionar. Assim, seremos o Brasil que chumba bichas eternamente. E que continuará a eleger vermes.

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