sábado, 6 de outubro de 2018

Aos eleitores do Bolsonaro


 
  Em sua conta no Twitter, a colunista de política do jornal Zero Hora, Rosane de Oliveira, comentou sobre o debate entre presidenciáveis que aconteceu na quinta-feira, dia 4, que existem sim boas opções de voto e propostas coerentes entre os participantes. Algo ignorado pelos eleitores.
    Isso me faz pensar nos eleitores do Bolsonaro, que justificam a sua escolha como sendo a única possível dentre as opções. Muitos são os motivos apresentados. Eu não concordo com nenhum deles.
    Sejam sinceros. Vocês querem a manutenção de privilégios. Não por acaso, o mercado financeiro está em festa com a possibilidade de Bolsonaro vencer. Bolsa em alta, dólar em queda. Você que é empresário, vai ser beneficiado com isenção de impostos, diminuição de direitos dos empregados, possibilidade de alteração no pagamento do 13º salário e férias. 
    Vocês não estão preocupados com a qualidade da educação pública brasileira, apenas querem que acabe uma propalada doutrinação marxista e a tal ideologia de gênero que fantasiam existir nas escolas, denunciando medos atávicos do seu subconsciente que talvez Freud explique.
    Vocês querem que o negro volte pra senzala, que não existam cotas, e o índio, indolente, talvez seja segregado em guetos, talvez piores que a miséria a qual já estão submetidos. Não adianta alegar que as falas do candidato líder das pesquisas são distorcidas ou editadas: ele falou e repetiu várias vezes, demonstrando o preconceito, o ódio às minorias, inclusive dizendo que elas devem se adequar ou simplesmente desaparecer.
    Vocês não estão preocupados com uma política de segurança pública séria, que resolva os problemas dos presídios, que diminua a violência que assola os grandes centros urbanos e está chegando ao interior. Vocês querem é o direito de andar armados e de atirar para defender suas propriedades.
     São treze candidatos à presidência da República, todos com falhas, mas todas as opções, exceto o Mito, são infinitamente melhores que a opção antidemocrática que se aproxima do poder. A imprensa internacional toda está falando sobre essa ameaça, não é a Globo não. Ao lado de Bolsonaro, vemos líderes religiosos que enriqueceram às custas de um povo trabalhador e que é manipulado pela fé. Vemos uma mistura que nunca deu certo, o discurso de ódio e excludente aliado ao poder da religião. Temos placas de vereadora assassinada sendo arrancadas e quebradas por seguidores da barbárie. Temos professores sendo ameaçados de morte pelos pais de alunos, por sua opção partidária. Temos grupos de mulheres em redes sociais sendo vandalizados. Temos pessoas incitando o ódio da população em cidades pequenas, contra pessoas que pensam diferente. Temos livros sendo proibidos e rasgados. Temos empresários coagindo funcionários e praticando o voto de cabresto. Temos o caos. E o Mito nem assumiu ainda.
     Os mais humildes que votam em Bolsonaro serão os que mais sofrerão. A elite e a classe média serão as favorecidas. Talvez isso explique a escolha pela pior opção. Vocês não querem mudança.
    Desejo a todos um bom voto amanhã. Aproveitem, talvez seja o último.




sábado, 8 de setembro de 2018

Tragédia brasileira




   A Semana da Pátria de 2018 ficará para a história. O museu brasileiro mais importante foi reduzido a cinzas. O candidato líder nas intenções de voto para presidente sofreu um atentado. As redes sociais fervilharam, acirrando ainda mais o embate entre direita e esquerda.
    Acompanhando as postagens de amigos e conhecidos nas redes sociais e ouvindo comentários aqui e acolá, percebo a dimensão da tragédia que vivemos. Uma tragédia muito maior que o atentado e o incêndio. É a tragédia da ignorância.
  Explico. Fica evidente a falta de leitura e informação do nosso povo.  A constatação não é minha: segundo pesquisas recentes, apenas 8% das pessoas em idade produtiva são consideradas plenamente capazes de entender e de se expressar por meio de números e letras.  Quase 50% dos brasileiros não têm o hábito da leitura. Se antes do Facebook ou Whatsapp as pessoas já liam pouco, agora é pior: estão sujeitas a uma avalanche de textos, notícias, artigos de opinião falsos, tendenciosos, que ajudam a espalhar o ódio e a intolerância, e que são compartilhados massivamente sem que as pessoas se deem o trabalho de ler além do título.

  Ou seja, estamos permanentemente expostos a muita informação ruim e falsa, fragmentos dela, resultando numa visão distorcida da realidade. Em época de campanha eleitoral, isso é muito sério. Para quem tem o hábito de ler, pesquisar, ir até as fontes, o estrago é menor. Aqueles que não conseguem romper a bolha ideológica ficam à mercê de um pensamento único, muitas vezes falso e nocivo.
  Eu sugiro que as pessoas leiam mais, principalmente em relação à política, às eleições. Mas escapem um pouco das redes, naveguem de forma independente. A internet é muito mais que redes sociais. Busquem as fontes, acessem argumentos contrários, reflitam. E então formem sua própria opinião, repudiando falsidades, sendo autênticos. Ajudem a diminuir a nossa maior tragédia.




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Relaxe, você não está sendo multado, vigiado, filmado




        Uma das coisas que mais me incomoda como professora é o fato de não poder sair da sala de aula para buscar algum material ou por outro motivo eventual, pois as crianças nunca, jamais, devem ser deixadas sozinhas, não só porque caso algum acidente ocorra, a escola e a professora são responsáveis,  mas porque os alunos estão habituados a “se comportarem” apenas quando alguém os está vigiando. Assim, são constantemente monitorados, cuidados, controlados, na sala de aula, no pátio, no recreio, no refeitório. E crescem com essa ideia ou forma de agir na qual só se faz o que é correto quando alguém está vendo.
      Quando não é o olho da professora, é o olho de Deus, nos discursos religiosos que pretendem controlar e incutir a ideia de que se você não se comporta, Deus é testemunha de seus atos e até pensamentos.
      Discordo tanto da forma como habituamos as crianças a fazerem o que é correto devido ao monitoramento constante,  como também não acredito que seja ideal usar a religião como forma de amedrontar. Mas, como disse Dostoiévski, se Deus não existisse, tudo seria permitido. As religiões têm mesmo um papel controlador da moral na história das civilizações, e não sou eu na minha sala de aula que conseguirei contestar isso.
       No entanto, essa é uma questão ética. No centro da cidade, os semáforos não multam mais. É comum ver os carros passando o sinal vermelho, algo raro quando a fiscalização eletrônica ainda existia. Vivemos numa cultura onde só andamos na linha quando estamos sendo filmados, monitorados, multados, vigiados. Não fazemos o certo pelo certo, mas pelo medo da punição. Talvez esse seja um comportamento que precise ser revisto. Porque não há virtude alguma nisso.
     Eu não devo andar em alta velocidade não porque posso ser multado, mas porque isso coloca minha vida e a vida dos outros em risco. Eu não devo matar não porque posso ir para a cadeia ou para o inferno, mas porque isso é errado. As crianças deveriam ter a capacidade de ficar cinco minutos sozinhas em sala de aula sem provocar nada de grave, sem a necessidade de estarem sobre o olhar implacável de uma professora que precisa se converter em vigia. Quem sabe, um dia.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

O esqueleto da baleia e a janela do avião








      Há uns vinte anos visitei um museu que fica localizado dentro de uma antiga fortaleza no litoral de Santa Catarina. Entre canhões,  manequins fardados como soldados da época do Império e  outras peças históricas, havia, numa sala enorme e escura, um esqueleto incompleto de baleia, não recordo de qual espécie, exposto. Eu nunca vira uma baleia de verdade antes, ao vivo. Ou o que restara dela. Recordo até hoje da sensação que tive, algo único, olhando para o tamanho daquela ossada. Jamais imaginara algo assim. Era como se o animal estivesse me dizendo: veja como você é pequena. Veja minha magnitude. Sim, diante de mim, você é insignificante.

   Eu senti um enorme respeito diante daquela baleia, e nunca mais esqueci isso. Anos mais tarde, na minha primeira viagem de avião, na qual eu estava totalmente aterrorizada, pois tinha certeza que ele cairia, ousei olhar pela janela, quando nos aproximávamos do litoral de São Paulo, e aos poucos iam se delineando os contornos da cidade lá embaixo, igual no Google Maps, aproximando, quarteirões, prédios, casas, as avenidas... Algo enorme, parecendo infinito, e imaginei quantas pessoas estavam abaixo de mim, cada uma delas envolvida em sua própria vida, presa no trânsito, dentro de um escritório, as crianças nas escolas, os doentes nos hospitais, centenas, milhares, milhões de vidas fervilhando, correndo, trabalhando, morrendo, nascendo, como se fosse um formigueiro humano.
    E então o mesmo sentimento que tive contemplando a ossada da baleia me invadiu, fazendo-me concluir que sim, somos pequenos, somos apenas formigas, ou melhor, somos iguais a elas, em sua insignificância, somos grãos de areia, partículas de pó. Somos pouco. E essa constatação não é em nada desesperadora, pelo contrário, ela nos liberta do fardo de acreditarmos que somos únicos e especiais. Porque não somos. Somos apenas uma partícula de insignificância buscando motivos e explicações dentro de um mundo complexo, vasto e inexplicável.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

As crianças que sobem em árvores



   As crianças que sobem em árvores
   Enxergam todas as cores do mundo.
   São acordadas cedo, convidadas pelo dia que inicia, a descobrir e explorar.
   As crianças que sobem em árvores
  Ouvem um não com uma sabedoria complacente
  E seguem escalando entre galhos mais altos.
  As crianças que sobem em árvores
  São as mesmas que conhecem o cheiro da terra respingada de chuva
  E do suor que atravessa a face depois da pelada entre amigos.
  As crianças que sobem em árvores
  Falam coisas incompreensíveis para os adultos
  Mas completamente verdadeiras.
  As crianças que sobem em árvores.
  Sim. Elas ainda existem.
  São observadas pelas crianças que jamais subiram em árvores
  Que testemunham seu feitos através de telas brilhantes em alta definição
  Que não sentem o cheiro da chuva e do suor
  Que desconhecem a incrível sensação de ascender aos galhos mais íngremes
  Que, talvez em seu inconsciente, apenas em sonhos, anseiam pela escalada, pela subida, pela libertação.



quinta-feira, 12 de abril de 2018

Uma camiseta e um conflito moral, filosófico, político


    O dia começou tenso. Antes das oito da manhã, já me deparei com um elemento nas redes sociais compartilhando um vídeo editado, manipulado, falso, para incentivar o ódio a certo político. Não consigo compreender como as pessoas se deixam enganar por essas mentiras e ainda têm coragem de passar adiante, sem verificar a veracidade da informação. Mas aí, saindo do trabalho, fui ao mercado. Na entrada, um homem com a camiseta do Bolsonaro. De relance, percebi que algo estava escrito atrás da vestimenta de extremo mau gosto. Mas, como não costumo de ser indiscreta, evitei olhar.
Eis que, diante do balcão dos frios, o eleitor de Bolsonaro para a minha frente. Descubro o que está escrito nas costas da camiseta. Uma frase de Martin Luther King Jr. A essa altura, quase sentei no meio do mercado e comecei a chorar. Inacreditável.

     Para quem não sabe, Bolsonaro foi condenado, ano passado, a pagar uma indenização no valor de cinquenta mil reais, por ter ofendido e depreciado a população negra e indivíduos pertencentes às comunidades quilombolas, ao proferir em palestra no Clube Hebraica, Rio de Janeiro, as seguintes frases:
“O afrodescendente mais leve lá (referindo-se a uma comunidade quilombola) pesava sete arrobas.”
“Não fazem nada, eu acho que nem pra procriador servem mais.”
Portanto, Bolsonaro foi condenado por racismo.
    A outra pessoa citada na camiseta é Martin Luther King Jr. Antes de qualquer explicação, ele era negro. Um importante ativista norte-americano que lutou contra a discriminação racial, tornando-se um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos EUA. Também recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964. Ou seja, alguém que lutava contra o racismo.
Bolsonaro tem como seu lema maior a frase "bandido bom é bandido morto" e frequentemente afirma que a solução para a escalada da violência no Brasil é responder com mais violência.
Martin Luther King Jr pregava exatamente o contrário e se recusava a usar a violência em seus protestos. 

    É por isso que colocar Bolsonaro e Martin Luther King Jr na mesma camiseta é algo incompreensível para quem conhece minimamente a trajetória dessas duas pessoas. O que me leva novamente ao problema do vídeo fake que assisti pela manhã. Pergunto-me como é possível tanta incoerência. Creio que a resposta deva ser a ignorância, ignorância essa alimentada pela falta de conhecimento histórico e político, de leitura, de interpretação.
    A propósito, a frase escrita na camiseta, de autoria de Luther King, era:

 “O QUE ME PREOCUPA NÃO É O GRITO DOS MAUS, MAS O SILÊNCIO DOS BONS”

    O que me preocupa é o radicalismo burro, a ignorância, o endeusamento de pessoas totalmente incapacitadas para liderar. E a ingenuidade daqueles que acreditam em falsos moralismos, em arautos da honestidade, e que vão sendo cada vez mais seduzidos por falsidades, exageros, por uma imagem sem conteúdo, uma casca de hipocrisia e mentira.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Dias de luta




      
Mariana Costa
Parabéns pelo seu dia, feliz Dia da Mulher! Vamos ouvir isso durante todo o dia de hoje. Mas algumas de nós não ouvirão. Mariana Costa, por exemplo, 33 anos, assassinada pelo cunhado. Ou Marisa de Carvalho, 48, diarista e vendedora morta pelo BOPE ao discutir com PMs que queriam prender seu filho. Essas e muitas outras mulheres não receberão felicitações pelo dia de hoje. Vivemos num país em que doze mulheres são assassinadas, em média, por dia. No Brasil, a cada onze minutos uma mulher é estuprada. As estatísticas dizem respeito aos casos notificados. A realidade pode ser bem pior.
Marisa de Carvalho

       Ser mulher é lindo, é poético. É ter força e coragem. Mas também é escolher entre maternidade e carreira. É ganhar menos que o colega que faz o mesmo trabalho que o nosso. É suportar piadas machistas idiotas e ter que sorrir amarelo. É defender seus direitos e igualdade e ser taxada de feminazi. É suportar uma jornada dupla, ou tripla, no trabalho, em casa, sendo mãe... É ter medo de sair tarde na rua. É ter que se preocupar com o comprimento da saia. É aceitar o pastor dizendo que não deve se separar de um marido abusador e violento. É ter que aprender a sentar com as pernas fechadinhas, desde cedo, porque uma mocinha se comporta assim, e reprimir sua sexualidade a vida toda para não ser chamada de puta ou vagabunda.
        Ser mulher não é fácil. Temos todo o direito de comemorar. Mas também temos milhões de motivos para lutar. E precisamos começar cedo, ensinando às crianças, aos nossos filhos, aos alunos, que homens e mulheres têm direitos iguais. Mostrar o que é um discurso machista. Contestar estereótipos de gênero. Talvez assim, no futuro, teremos uma sociedade menos perigosa e violenta para todas nós.
       Portanto, nesse 8 de março, vamos nos parabenizar. Nos demais 364 dias, precisamos lutar.


https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/cresce-n-de-mulheres-vitimas-de-homicidio-no-brasil-dados-de-feminicidio-sao-subnotificados.ghtml
http://emais.estadao.com.br/blogs/nana-soares/em-numeros-a-violencia-contra-a-mulher-brasileira/

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