domingo, 2 de outubro de 2022

Eu deveria estar do outro lado

Radicalismo político no Brasil supera média global | VEJA

 O título deste texto deveria terminar com interrogação?

Porque a frase é uma dúvida que tenho, ao final da apuração de votos da eleição.

Explico.

Nunca recebi nenhum auxílio do governo. Gasto meu salário com coisas dispensáveis: roupas, calçados, produtos cosméticos. Não dependo da minha renda para comer. Para fazer rancho. O preço da gasolina não faz muita diferença na minha vida: o marido enche o tanque do meu carro, e também paga o IPVA. Não dependo do SUS, caso fique doente. O plano de saúde cobre quase tudo, e, se não cobrisse, certamente teria dinheiro para pagar por uma cirurgia de emergência ou procedimento eletivo. Não pago aluguel. Programas de moradia popular são indiferentes para mim. Meus filhos estudam em escola particular, nunca me preocupei com vagas em escola pública, nem com falta de professores ou merenda. Sou branca. Jamais me senti intimidada em locais como restaurantes ou shoppings. Sou uma mulher branca privilegiada, que não depende do salário de professora para pagar as contas. Por que eu deveria defender as pautas de esquerda e votar no Lula?

Porque tenho consciência da minha realidade. Sei que sou privilegiada. Mas, como professora de escola pública há mais de vinte anos, outra realidade se revela no cotidiano. Sei a importância que tem uma merenda de qualidade no meio da tarde. Conheço a diferença que faz, na criança desamparada e pobre, o turno integral. Vejo meu aluno pobre e negro tendo oportunidade de cursar o ensino superior somente através do programa de cotas, ao contrário do meu filho de dezoito anos, branco de olhos azuis, que cresceu dentro da escola privada, que prepara para o vestibular e tem condições de se inscrever em qualquer universidade do Brasil. Sei da mãe do meu outro aluno, vítima de violência doméstica, que só terá amparo de um governo que combate o feminicídio e o machismo. E tem a avó do outro estudante, que criou seis netos e só poderá viver com alguma tranquilidade se conseguir se aposentar. 

Eu sei disso tudo, porque não penso apenas em mim. Bolsonaro ou Lula, pouco importa quem vencerá a eleição, para mim e para minha família. Não passaremos fome. Continuaremos a abastecer o carro, a viajar e a comer picanha. Mas meu aluno não. Nem sua família. E saber que muitos deles não têm esta clareza de pensamento me dói. Saber que se deixam convencer pelas mensagens do zap, que são manipulados e enganados. É por eles que continuarei lutando e chorando e sofrendo. Até que a esperança vença. Até que os ventos mudem e soprem que é possível reconstruir um país. 

Eu preciso acreditar. Nós precisamos. 

Por favor, digam que estou do lado certo!

segunda-feira, 11 de julho de 2022

As ruas não são para mulheres

Eu estava indignada com o caso da menina de 11 anos,  de Santa Catarina, induzida pela juíza responsável a não realizar um aborto totalmente legal. A magistrada, com uma conduta questionável, tentou  impedir a interrupção de uma gravidez decorrente de estupro. A  história tomou conta das manchetes e das redes sociais durante o mês de junho. Ao mesmo tempo, se desenrolou uma discussão, em grupo de whatsapp, sobre um projeto de lei municipal que equipara os nomes das ruas da cidade entre homenageados homens e mulheres. Confesso que, na ocasião, o assunto me irritou. Por que cargas d'água estavam falando sobre isso, quando temos em nosso município tantos casos de mulheres em situação de violência doméstica, sem oportunidades de emprego e estudo? Será que o debate sobre nomeação de ruas era realmente necessário? É óbvio que a representatividade importa, mas me pareceu que havia outros problemas mais urgentes. 

No entanto, fiquei pensando a respeito. E cheguei à uma conclusão. A questão do direito ao aborto legal está intimamente ligada ao debate sobre nominação de ruas, de forma equiparada, entre personalidades masculinas e femininas. Em diferentes níveis. 


Explico. Um pensamento atrasado e rudimentar, quando se fala em direitos das mulheres, predomina em parcela considerável da sociedade brasileira-  e especialmente em comunidades pequenas, como a lagoense. Esposas e namoradas são mortas pelos companheiros (ou ex), que as consideram uma propriedade. Lemos as estatísticas de feminicídio e seguimos a vida, como se tais números fossem naturais ou inevitáveis. Negamos o direito feminino ao próprio corpo e saúde, dificultando a interrupção da gravidez, evocando o direito de nascer do feto. Justificamos estupro e abuso, analisando as vestes e comportamento das vítimas. Aliás, a maior autoridade política do país afirma que só não estuprou uma colega porque ela era muito feia. A mesma figura considera sua única filha uma fraquejada.Estamos, pois, neste nível. E, ao propor uma lei em que mulheres e homens tenham paridade na nomeação de ruas, vamos para o nível mais elevado. Passamos para a etapa na qual as mulheres não são apenas valorizadas, reconhecidas e respeitadas. É o nível no qual são exaltadas e eternizadas, nível este em que apenas as sociedades realmente livres e igualitárias estão incluídas.


Hora, não me surpreende que seja revogada, pela Câmara de Vereadores de Lagoa Vermelha, uma lei que prevê paridade de nomeação de ruas.  A referida câmara é majoritariamente masculina, com representantes que, em sua maioria, estão lá no nível rudimentar de pensamento, naquele nível no qual  se acredita que nem mesmo os direitos mais básicos das mulheres devam ser reconhecidos e assegurados. Nenhuma surpresa. Somos o país de Marielle Franco. Lugar onde uma vereadora é assassinada e em seguida tem sua memória desrespeitada por homens que sobem ao palanque e rasgam sua placa. Uma placa que nomeava uma rua. Violência física, violência simbólica. Aqui, nessa pequena cidade, e em muitas outras espalhadas pelo país, as ruas não são para mulheres.


domingo, 19 de junho de 2022

Por que as mães choram?

 Mãe, por que você está chorando?

Foi essa a pergunta que fiz quando a minha mãe, no dia em que Tancredo Neves morreu, chorava ao colocar a mesa para o almoço. Ela apenas disse: estou triste.

Foi o mesmo que respondi ao meu filho mais novo, semana passada, ao lavar louça e ouvir a voz de Bruno Pereira, indigenista brutalmente assassinado, entoando o cântico do povo Kanamari. Por que está triste, mãe?- insistiu o guri. 

Como explicar para o seu filho que este é o sentimento constante nos últimos quatro anos, que começa assim que você abre os olhos pela manhã e lembra: Brasil, né. Moro no Brasil. E então recordo quando essa tristeza passou a pesar, cortando os dias com a faca da realidade, no exato dia em que Jair Bolsonaro passou para o segundo turno das eleições, como candidato mais votado. Até ali, embalada pela esperança do Ele Não, da mobilização das mulheres nas ruas do país (maioria eleitoral), eu acreditava que era possível acordar do pesadelo. Mas não. Naquela tarde, após o resultado das urnas, meio que anestesiada pelo impacto, pelo fato de que grande parte do povo ansiava por um líder despreparado e cruel, escolhi para assistir um filme na Netflix, extremamente doído, que contava sobre um caso real: o estupro de mulheres africanas como arma de guerra (desculpem, não lembro do título e não consegui encontrar). Lá pelo meio da história, as lágrimas vieram, se avolumaram e converteram-se num choro incontrolável. Eu queria acreditar que a tristeza era pelo filme, mas no meu íntimo sabia que o desespero era pelo que viria. Porque era claro o que estava por vir, e todo mundo minimamente consciente sabe do que estou falando. 

No entanto, jamais imaginaria que estaria chorando, quatro anos depois, por um homem de quem nunca ouvira falar (que vergonha!), que cantava, despojado de qualquer conforto, acomodado no chão da selva, um homem que era rodeado por indígenas enquanto pesquisava algo em seu notebook, seu ombro servindo de apoio para uma pequena indígena, numa demonstração de intimidade e confiança. Chorava e choro porque esse mesmo homem está morto. Morto porque pelos seus ideais totalmente contrários ao que defende o inominável da república. Morto porque acreditava que os indígenas merecem respeito e cuidado, assim como a floresta, que é a casa desses povos. Os corpos mortos e esquartejados de Dom e Bruno são a materialização cruel do ideário que tomou conta do Brasil, na onda que se diz conservadora mas não passa de fascismo embalado pelo lema "Deus Pátria Família". Quase quarenta anos depois de fazer a pergunta para minha mãe, compreendo que ela chorava porque a esperança de um país melhor morria naquela manhã. Assim como minha esperança morreu no primeiro turno de 2018, tentou ressuscitar muitas vezes nos anos que se seguiram, e quase conseguiu. Mas aí matam a voz que ecoava no coração da floresta, sepultam os sonhos, destroem as sementes de um país melhor. E as mães choram, em suas cozinhas e pias e quartos, e os filhos perguntam: por quê?

domingo, 5 de junho de 2022

A cultura coach chega à escola pública

O universo coach domina as redes sociais e faz parte da vida de muitas pessoas. Tem coach que ensina a ser magro, saudável, feliz, realizado profissionalmente... Que promete transformar a vida afetiva e sexual, renovar a autoestima e transformar a vida dos seguidores. Era evidente que, mais cedo ou mais tarde, a cultura coach, com seu discurso afinado com empreendedorismo, força de vontade e engajamento, chegaria à escola pública. O que surpreende é que tenha acontecido por vias institucionais- através de um projeto abraçado pela Secretaria de Educação do RS.

Na quarta edição do evento "Crie o impossível", cerca de 300 escolas gaúchas e mais de 10 mil alunos conheceram trajetórias inspiradoras, como por exemplo, a história da cientista Jaqueline Goés, responsável por liderar o sequenciamento do DNA do vírus da Covid 19, no Brasil. No entanto, tal exemplo, mais voltado para uma formação "tradicional" e acadêmica, ficou diluído num universo bastante diverso (diria, controverso) de "sucessos" profissionais. Influenciadores digitais, tiktokers e empreendedores foram presença maciça no evento. Bianca Rosa, mais conhecida como Boca Rosa, ex-BBB, foi exaltada como exemplo de empreendedorismo e abordou a importância do marketing para angariar seguidores. Aliás, quase que no mesmo dia circulou pelo Twitter uma imagem com uma "receita" da influencer para fazer sucesso. Um roteiro básico de como vender sua imagem no Instagram:


É curioso que a Seduc promova tal evento. Remete ao conceito da sociedade do espetáculo, criado por Guy Debord, definido como o conjunto de relações sociais mediadas pelas imagens. E é isso que os Influenciadores digitais, empreendedores e coachs  fazem. Eles pululam nas redes sociais, vendendo cursos, prometendo sucesso instantâneo e a resolução de problemas financeiros, emocionais e amorosos com fórmulas prontas- e, no mínimo, duvidosas. Talvez o maior mérito de tais profissionais esteja, justamente, em saber vender sua imagem, criar uma ilusão desejada e consumida pelo público. São mestres da aparência. No próprio portal da Seduc é possível ler: "oportunizar aos jovens o acesso a uma educação empreendedora, protagonista e empoderada." Frase tão vaga e vazia quanto os ensinamentos da cultura coach.

Enfim, depois das aprendizagens e oportunidades proporcionadas por eventos nesse formato, talvez possamos nos deparar com currículos que ensinem:

-Como aumentar suas chances de ser selecionado para o próximo BBB.

-As melhores dancinhas do TikTok para ganhar seguidores.

-Como ser um cientista sem laboratório.

- Manual para selfies engajadas e empoderadas.

-Conquiste seu primeiro milhão vendendo bolo de pote.

-Física quântica e inteligência emocional: um guia.

 Baita revolução na educação.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Aprendemos alguma coisa?

 São mais de dois anos de convivência com um vírus até então novo entre humanos. Era mais que esperado que a humanidade tivesse aprendido um pouco sobre biologia e saúde em geral. Informação não faltou (e uma avalanche de informações falsas; infelizmente, suspeito que perdemos uma oportunidade para nos vacinarmos contra o vírus da mentira ). A promessa de que sairíamos melhores da pandemia não se concretizou e grande parte das pessoas prefere retomar seu lugar na caverna da ignorância.

Explico. Há uma semana são relatados os casos crescentes de Covid em escolas de Porto Alegre. Algumas tiveram aulas suspensas. As reportagens explicam que os ambientes passaram por uma "desinfecção". Desinfecção. Um vírus que se transmite pelo ar. Depois de todos os estudos, reportagens, entrevistas com especialistas e cientistas, após todo o conhecimento produzido e compartilhado, ainda se adota como estratégia, para evitar o contágio, besuntar tudo com álcool em gel. Talvez borrifem no ar, inspirados pelo político que, ano passado, queria pulverizar a substância sobre as cidades, usando um avião.

Você entra numa sala de aula e todas as janelas e a porta estão fechadas. O ar condicionado ligado. Nenhum aluno utiliza máscara. Muitos espirram e tossem, espalhando partículas no ar abafado e sem circulação. Covid, gripe, resfriado e pneumonia devem estar amando esse "novo normal". Nem mesmo etiqueta respiratória foi assimilada. E não é exclusividade das escolas: no mercado, levei um jato de espirro da operadora do caixa, enquanto ela embalava as compras. 

Aí você lê as notícias do município e descobre que certo deputado destinou verba para promover as PICS - Práticas Integrativas e Complementares em Saúde no SUS. O dinheiro do contribuinte vai ser usado para pagar terapias totalmente pseudocientíficas ( ah, minha Santa Natalia Pasternak, me ajuda!). Leia-se: práticas que não têm comprovação científica alguma, como por exemplo, constelação familiar, aromaterapia, ozonioterapia e reiki. Que podem, inclusive, prejudicar ainda mais a saúde das pessoas, estimulando falsas expectativas e fazendo com que os tratamentos sérios e apropriados sejam abandonados. É óbvio que existe um lobby enorme por trás das tais PICS (follow the money!). Mas o SUS do atual governo distribuiu remédios sem eficácia e desestimulou o uso das vacinas, então, é compreensível, em parte, que tais terapias sejam propagadas. No entanto, causa estranheza que, muitos daqueles que atacam as vacinas, apelando para histórias lunáticas que envolvem conspirações internacionais, ETs e todo tipo de bobagem, não titubeiem em oferecer as nádegas para aplicação de ozônio... Criticidade seletiva? Baseada exatamente no quê? 

Enfim, deveríamos ter aprendido o básico.

Máscaras protegem do contágio por infecções respiratórias.

Máscaras frouxas, mal ajustadas ao rosto, de material inapropriado, não protegem o suficiente. 

COVID se transmite pelo ar, não pela contaminação de superfícies.

Medir temperatura corporal no pulso é inútil.

Vacinas funcionam e são seguras.

Vacinas são medidas de prevenção coletiva de doenças. A imunidade só vem se a maioria da população se vacinar.

Pseudociência não deve ser estimulada pelo poder público e nem paga com o dinheiro do contribuinte.

Por fim, a ignorância mata. Matou muita gente nesses dois anos. E continua. 

Quer fugir da ignorância? Aí vai uma lista de links para se informar:

https://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2021/07/22/imprensa-ainda-promove-negacionismo-chique

https://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus

https://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/03/11/que-mal-que-tem-amputacao-por-ozonioterapia

https://revistaquestaodeciencia.com.br/apocalipse-now/2022/05/01/antroposofia-e-o-racismo-esoterico

https://www.youtube.com/watch?v=kpt_Mp1V7Co&t=65s

https://www.youtube.com/watch?v=Rjlg_Am3jNg&t=593s

https://www.youtube.com/watch?v=wulqli2R7vA&t=978s



terça-feira, 16 de novembro de 2021

Cadeiras vazias

 



Depois de vinte meses, finalmente as cadeiras ficaram vazias. Por mais de seiscentos dias, meus dois filhos ocupavam esses lugares, divididos entre aulas online, jogos e vídeos do YouTube. Aliás, obrigada Steam, obrigada Discord. Centenas de dias de interações através de telas, enquanto eu passava de um lado para outro do apartamento, fazendo faxina, cozinhando, preparando minhas próprias aulas e, claro, acompanhando o desenrolar da pandemia pelas notícias e canais de divulgadores científicos. Enquanto isso, e principalmente lá por maio desse ano, a maioria dos colegas e amigos dos meus filhos voltavam ao propalado "novo normal": escola de forma presencial, futebol, passeios pelo centro da cidade, até mesmo algumas festinhas. Eles nunca pediram para sair; ao contrário, diziam que apenas voltariam para o "mundo exterior" quando vacinados com duas doses. 

Semana passada, quando essas cadeiras ficaram vazias, também senti um vazio enorme: foi uma convivência muito próxima, por bastante tempo. E, subitamente, eles não estavam mais ali. Mas não foi o sentimento de solidão que mais me tocou, e sim a constatação de que eles perderam muito e que não precisava ter sido assim. Até me culpei, matutando se deveria tê-los deixado vivendo como se nada acontecesse, como se a pandemia fosse algo distante e que jamais nos atingiria de maneira mais séria- como grande parte das famílias fez, desde o início. Porém, acredito que o ponto é outro: e se todos, mas todos mesmo, tivessem levado a sério o isolamento e distanciamento social lá no início de 2020, por apenas catorze dias, que é o ciclo infeccioso da doença? Com certeza, essas cadeiras teriam ficado vagas muito tempo antes. Quantas interações e experiências meus filhos deixaram de ter porque simplesmente parece que não temos quase nenhum senso de coletividade?

As notícias sobre o novo epicentro pandêmico, a Europa, nos mostram que a falta deste senso não é exclusividade do Brasil. Na Áustria, a vacinação estagnou em 60% da população e os índices de contaminação explodiram. O governo determinou, então, um lockdown para os não-vacinados. Eis que, no outro dia, formaram-se filas de pessoas em busca da vacinação. O fator que levou essas pessoas a finalmente buscarem a imunização não foi o fato de que a pandemia voltou a todo vapor por lá, lotando novamente os hospitais e interferindo na vida coletiva, mas sim uma medida que as afetou em sua individualidade. Não poderiam trabalhar, passear ou ir a lugar algum sem tomar a vacina. 

Os epidemiologistas cansaram de explicar que, numa pandemia, é preciso que existam medidas de abrangência coletiva. Isso se aplica às vacinas: só acontece uma imunização suficientemente efetiva se a grande maioria da população está vacinada. Da mesma forma, o uso de máscaras é mais eficiente se todos as utilizarem, de forma adequada, cobrindo a boca e o nariz completamente. São muitos os "ses" que aparecem quando você pensa que poderia ter sido diferente: se as pessoas não tivessem aderido ao discurso do "saúde X economia"; se a pressão por uma política de seguridade social e econômica durante o período do isolamento fosse maior sobre os governantes, no lugar dos protestos pela reabertura dos comércios; se existisse um esforço coletivo para erradicar as notícias falsas e as mentiras que circulam pelas redes sociais, levando muitos à exposição ao perigo ou a negação da vacina; se os responsáveis pelas crianças e adolescentes entendessem que, enquanto permitem que seus filhos saiam e interajam normalmente como se não houvesse amanhã, há muitos que abrem mão de satisfações e prazeres momentâneos, permanecendo em casa, porque entendem que isso é o certo a se fazer quando se vive em sociedade; se realmente existisse uma sociedade comprometida com a verdade, a saúde e o bem-estar de todos...

Talvez, na próxima pandemia. 

domingo, 4 de julho de 2021

Carta para meus descendentes

 

Lagoa Vermelha, 04 de julho de 2021.


Queridos e queridas,


Este é um domingo que encerrou uma semana atribulada e marcante.Muitas

pessoas foram às ruas, ontem, apesar da pandemia, para protestar contra um

governo que demonstrou toda a sua incapacidade na gestão da crise. 

 

As palavras genocida, vacina, propina e ciência estavam nos cartazes, em faixas, 

escritas nas ruas, nas camisetas… E, pela primeira vez, um grupo de 

manifestantes ocupou a avenida principal da nossa cidade para demonstrar

 indignação com a situação. 

 


 

Ao longo de uma semana, conversamos num grupo de whatsapp, criado 

especialmente para organizar a ação. Pessoas que não se conheciam pessoalmente,

 outras já velhas companheiras de outras lutas, unidas em torno de um mesmo 

objetivo. Havia mais, muitas mais, que não puderam participar: elas temiam

perder o emprego, não queriam decepcionar os amigos, ou clientes, ou até mesmo

evitavam conflitos familiares. Falamos sobre a bandeira, sequestrada e adotada

 pela extrema-direita como seu símbolo maior; alguns participantes queriam

 utilizá-la, como uma forma de resgate do símbolo que devia ser de todos, e não 

de uma parcela tresloucada da população que agia como que hipnotizada (eu 

diria até lobotomizada. Por favor, ao terminarem de ler essa carta, pesquisem

 todos os termos que não lhes são conhecidos. Será um grande exercício de 

compreensão desta época que vivi). 

 

Houve tentativas de impedir nossa manifestação: ameaças veladas e recusas

 por escrito. Alguns desistiram de participar, enquanto outros incentivavam os

 mais temerosos a não retrocederem. Os experientes, forjados em outras lutas, 

habituados aos ataques, resistências e afrontas, nos diziam: não podemos ter 

medo, porque o medo nos enfraquece. O medo nos paralisa.

 

E então, apesar de todos os entraves e dificuldades, na tarde de sábado, a cidade 

teve o primeiro protesto contra um governo que deliberadamente agiu para que 

pessoas morressem. Eu ouvi um senhor contando como sua vida foi afetada pela

 construção de uma barragem,  e como foi possível reverter a situação através da

 união e resistência dos moradores atingidos. Enquanto ele falava, empunhando 

a bandeira de suas causas, humildemente dando seu testemunho, circulavam 

caminhonetes importadas pela via, cujos ocupantes lançavam olhares e 

expressões de riso e desprezo. Enquanto uma moça muito corajosa, líder de 

grupos feministas, falava sobre como a fome aumentara gritantemente desde o  

ano anterior, as máquinas potentes aceleravam seus motores na pista, tentando 

abafar suas palavras. 

 

Depois dos discursos, seguimos a pé pela avenida, enquanto os trabalhadores

 do comércio corriam até as portas para conferir os gritos e cantos que 

extravasavam um pouco da indignação, da dor e da revolta…Não recebemos 

aplausos esfuziantes, pois muitos dos chefes estavam ali, atrás do balcão, 

e muitos deles ainda eram admiradores do governo da morte; o máximo que

 recebemos foram sinais de positivo com o dedo, feitos discretamente. Uma loja, 

ao perceber nossa aproximação, fechou rapidamente as portas (sim, 

provavelmente imaginaram  que estaríamos dispostos a saquear ou quebrar 

seu patrimônio). 

 

Ao final, alguém disse: “esse foi o melhor dia que vivi nos últimos tempos”. 

Queríamos nos abraçar, demonstrar a alegria do feito, mas não podíamos: havia

 a ameaça constante e sorrateira do vírus entre nós. Nos despedimos, aos poucos,

 baixando as bandeiras, enrolando os cartazes, absorvidos ainda na tentativa de

 compreensão daquele sentimento novo, um sentimento de “sim, nós fizemos isso”.

 Seguiram-se comentários nas redes sociais, desfazendo da ação, dizendo que

 éramos poucos, que éramos vagabundos, que devíamos ter vergonha… ataques

 ainda seguem, agora, no domingo à noite. 

 

O porta-malas do meu carro está cheio de alimentos para doação, alimentos que 

arrecadamos na tarde de ontem. Uma pessoa muito engajada na comunidade vai 

distribuir para os mais necessitados. E fiquei sabendo, cedo, que há bairros na 

cidade onde as crianças ainda andam descalças e reviram os sacos de lixo para 

encontrar algo que sacie sua fome. E percebo que o porta-malas não é suficiente. 

Que os pais dessas crianças provavelmente estão sem emprego e moram em

lugares onde é impossível se aquecer numa noite fria como a de hoje. E que 

eles não sabem tudo o que acontece em Brasília, não acessam o jornal matinal

 como eu, acompanhando as notícias sobre os cortes na educação e na saúde, 

enquanto desfruto de um belo café. Talvez esses pais e mães sejam analfabetos, 

ou não consigam terminar de ler uma frase e compreender seu significado. 

 

Penso que amanhã vou para a escola e terei em minha sala de aula crianças 

que estão no quarto ano e, privadas de um ensino adequado durante a pandemia,

 sofrem com enormes lacunas de aprendizagem, que vão se estender ainda por 

muito tempo. Todos esses pensamentos me fazem engolir em seco, porque há 

mais de vinte anos participei do Censo do IBGE e conheci uma realidade que

 me impactou: uma ilha de classe média, representada pela parte da cidade que

 habita a região central, cercada por um mar de pobreza distribuída pelos bairros. 

Da mesma forma, faz vinte anos que trabalho nas escolas e continuamos

 enfrentando os mesmos problemas, agravados pela pandemia. Aliás, isso me 

lembra outra história, mais antiga: quando eu era criança, devia estar no quarto 

ano, certo governo estadual distribuiu um kit de material escolar, constituído de

 cadernos, lápis e borracha, e eu ganhei um deles. O caderno era feito de papel 

reciclado, mas parecia papel higiênico: rasgava assim que você começava a 

traçar a palavra nele. O lápis quebrou a ponta na primeira forçada: jamais

 consegui apontá-lo, pois a madeira era tão mole que quebrava dentro do 

apontador. Restava apenas a borracha, mas não havia o que apagar. E por que 

lembrei disso? Porque agora, em 2021, o governo do estado enviou máscaras

 para os estudantes utilizarem...máscaras de tecido fino, com tamanho 

inadequado, e elásticos frouxos. Máscaras vagabundas que denunciam o 

descaso dos governantes com as pessoas. Cadernos que rasgam, lápis que 

quebram, máscaras que não protegem.

 

Espero sinceramente que as coisas tenham mudado. Que, ao menos, o governo 

do tempo de vocês escute e respeite o que os cientistas dizem. Que ele não

 ataque jornalistas apenas porque estão fazendo seu trabalho. Que ele não

 utilize a religião para iludir e  enganar. Que ele seja justo, digno, que governe

 para todos, e não para o seu cercadinho (se não sabem o que é, pesquisem 

Bolsonaro cercadinho, vocês vão descobrir). Espero que a fome não esteja

 mais presente, nem a escola precária, nem o desemprego e a desilusão de

 viver em um país tão maltratado. Espero que a bandeira nacional e as cores

 verde e amarela não sejam mais associadas a hordas de fanáticos políticos que 

repetem, sem parar, eterna e previsivelmente: “vocês preferem o Lula ladrão?”;

 “agora não existe mais corrupção”; “nós somos os cidadãos de bem”; 

“a esquerda é vagabunda, tudo que é da esquerda não presta!”...Enfim, 

espero que as pessoas do seu tempo sejam capazes de discernir entre fatos 

e opiniões, que percebam que existe, sim, dignidade na política, e que não

 roubar não é virtude, mas sim uma obrigação. Alguns dizem que isso se 

chama utopia. Ótima palavra para pesquisar, caso não saibam o significado. 

Eu digo que é sonho. 

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