segunda-feira, 24 de maio de 2021

Marcha, estudante!

 Eis que o tal modelo de escola cívico-militar ronda o Bolsonaristão do Sul. Assim que a possibilidade de implantação de tal modelo em uma escola da cidade surgiu, o assunto domina os meios de comunicação locais. Você é contra ou é a favor? - perguntam, para uma população que, desinformada, é seduzida a crer que escola cívico-militar equivale à escola militar.


Vamos aos esclarecimentos. As escolas militares foram criadas para atender a um público muito específico- por exemplo, familiares do pessoal das Forças Armadas, do Corpo de Bombeiros e da Polícia. Para conseguir uma vaga em uma escola militar, é necessário ser aprovado numa espécie de vestibular. Temos então: um grupo de estudantes específico, que provavelmente tem uma condição econômica confortável, e que também passa por uma seleção baseada no conhecimento. Talvez essa variável explique, em grande medida, o bom desempenho das escolas militares em avaliações de aprendizagem: elas atendem a um público seleto, e com melhores condições socioeconômicas, em comparação ao grupo de alunos que compõe as escolas públicas brasileiras "normais", nas quais as notas em avaliações, em geral, são bem menores.  Além disso, as escolas militares possuem um currículo diferenciado, com proposta pedagógica específica, elaborada pelos próprios militares.


 

E a escola cívico-militar, o que é? Ela é muitas coisas, dentre elas, uma forma de fazer propaganda de um ensino baseado na disciplina e na obediência. Nela, pretende-se colocar militares nos cargos de gestão e coordenação escolar, para, de certa forma, estruturar e administrar o colégio. Professores continuarão dando aulas, planejando e avaliando os alunos. O público desse modelo de escola continuará sendo o mesmo: crianças e adolescentes que, em grande parte, carregam um histórico de dificuldades de aprendizagem, distorção entre idade/ano frequentado, atraso escolar, pouco ou nenhum incentivo ao estudo, entre outros problemas. E então, da noite para o dia, esses alunos e alunas serão fardados, deverão manter cabelos bem aparados (meninos), ou amarrados (meninas),  e obedecerão a uma série de normas baseadas na disciplina militar. Seu aluno não sabe ler, aos dez anos de idade? Não se preocupe, ele vai aprender a cantar o hino (e, veja bem, não há nada errado em saber cantar o hino, aliás, existe até uma legislação que prevê isso nas escolas "normais". A questão é que a exaltação aos símbolos nacionais será item de destaque em tal proposta), mesmo que não saiba escrever um verso sequer do mesmo. Os adolescentes estão em plena fase de descobertas, rebeldia e contestação? Baixa a bola, rapaziada, que com os milicos não tem espaço para qualquer manifestação mais exaltada. E é exatamente neste ponto que tal modelo de ensino tende a afastar os alunos: não é qualquer criança ou adolescente que se encaixa no perfil de estudante por ele pretendido.E, quando as pessoas não se encaixam, elas tendem a desistir- traduzindo, pode haver ainda mais abandono e evasão escolar.

Infelizmente, a maioria dos pais e responsáveis pelos estudantes não tem clareza a respeito das diferenças entre os dois modelos. O que se faz é uma propaganda enganosa, anunciando uma escola exemplar, com um sistema de ensino eficiente, que resulta numa aprendizagem espetacular. O que se entrega é um Frankeinstein pedagógico. Os déficits educacionais e todos os outros problemas que desembocam na escola continuarão existindo- abafados pela pretensa disciplina e ordem impostas.


 

 Não é de surpreender que o Brasil reme na contramão. Em uma breve pesquisa, descobrimos o que as melhores escolas do mundo priorizam: estímulo à criatividade, à autonomia e ao pensamento crítico. Foco no aluno e no processo de aprendizagem. Assim como na saúde, ciência, direitos humanos, meio ambiente, nosso país segue no rumo do atraso e do equívoco. Marcha, estudante brasileiro, marcha na contramão, para encontrar um passado glorioso que nunca existiu, para fugir do que precisa ser enfrentado e modificado através de políticas públicas eficientes. Marcha, que lá vem aquela galera: da anticiência, da cloroquina e do remédio para piolho. Aí vem o pessoal da rachadinha, da máscara no queixo, da manifestação antidemocrática. O povo do trator.  Os degustadores da picanha regada a Heineken, querendo moralizar o país!


sexta-feira, 5 de março de 2021

Lei de Deus ou Lei dos Homens?

 Foi no terceiro ultrassom que Jéssica descobriu que o feto aninhado em seu ventre não tinha cérebro. O médico virou para ela e disse: tenho uma notícia ruim para dar. Falou ainda que estava amparada por lei e poderia decidir abortar. Ela se calou até o final da consulta. Uma pedra parecia esmagar o seu peito ao sair do consultório. Não precisaria mais ir até a loja da esquina e comprar parte do enxoval. Roupas, sapatinhos, fraldas e brinquedos não seriam necessários. No dia seguinte, na igreja, o padre falou sobre as almas impedidas de nascer e como ficavam presas num lugar ainda pior que o inferno. Explicou que a alma se une ao corpo assim que a concepção acontece; sendo assim, uma mulher que aborta é uma assassina e uma herege. Se interromper a gravidez já era uma possibilidade remota, a simples visão de uma alma inocente queimando em algum lugar do além por sua culpa a fez desistir de vez de colocar um fim na gestação. 

Uma onda escura se estendeu sobre os meses seguintes. Ela se obrigava a comer e desistiu de trabalhar. Passava os dias e noites restrita à cama, levantando apenas para tomar um banho quando o marido a arrastava até o banheiro. A barriga crescia, mas ela não queria acariciá-la. Em breve, seu habitante deixaria o local quente e protegido, para apenas respirar por segundos, talvez minutos, antes de voltar à escuridão. Ela gestava a morte.

O dia do nascimento ocorreu sem alardes: nenhum enfeite na porta da maternidade, sequer um nome foi escolhido. Jéssica não quis saber se o bebê era menino ou menina. Na sala fria e asséptica, ela sequer observou a movimentação da equipe médica enquanto era anestesiada. Remexeram no seu ventre, retirando dali a criança. A ausência do choro invadia aquele lugar. A pediatra se aproximou e perguntou se queria vê-la. Movida por uma curiosidade que não desejava ter, vislumbrou o rostinho arroxeado, o nariz inchado, a total ausência de movimentos. Pediu que o vestissem com a roupa amarela e jamais tornou a ver o filho que saiu do seu ventre.

A esperança de que seu estado de humor melhorasse após o parto traumático se esvaiu em menos de uma semana. O bebê a visitava em pesadelos, cobrava o amor que não lhe deu durante a gestação, pedia que conversasse com ele. Ela passou a evitar o sono; amanhecia sentada na cama, olhando para a parede vazia em frente. E então os pesadelos invadiram a vigília, e ela já não sabia mais o que era real e o que brotava da sua imaginação. Numa tarde em que o sol esqueceu de aparecer, ela subiu ao quinto andar do prédio, fitou o horizonte cinza, escuro e triste, como sua trajetória nos últimos meses. Abriu os braços e pulou, aceitando a escuridão que agora seria eterna.

Na mesma cidade, Luana esvaziou a garrafa de vodka, que cada vez durava menos. A reportagem da TV destruiu o resquício de ânimo dos últimos dias. Era insuportável passar por aquilo sem que o álcool percorresse sua corrente sanguínea até anestesiar a consciência. Seu filho apareceu na tela, isolado, brincando com uma bola encardida no canto de uma quadra de futebol. A jornalista falava da quantidade de crianças à espera da adoção, e como os interessados em adotar tinham a preferência por bebês ou crianças de olhos e pele clara. Tudo o que seu filho, abandonado ao nascer, no hospital, não tinha.

Foi numa noite chuvosa que o estuprador a atacou na esquina, antes de chegar em casa. Era sexta e os colegas da universidade foram agitar em algum bar; ela preferia assistir TV e dormir antes da meia-noite. Mas o homem a agarrou, arrastando-a para o matagal ao lado do mercadinho do seu Rubens, tapando-lhe a boca com um trapo, até que se satisfizesse. Precisou catar os cadernos e livros na escuridão, enquanto tentava impedir que as lágrimas aflorassem, e somente em casa explodiu em soluços e num choro doído. O pai apareceu, e assim que se deu conta do que acontecera, queria sair, caçar o culpado, talvez o matasse. Jamais o encontraram, mas ele permaneceria com ela para sempre. Deixou um filho. Os colegas a convenceram a interromper a gravidez, afinal, era seu direito. Mas o pai não permitiu: segundo sua crença, aquilo aconteceu por algum motivo. Era um resgate de uma vida passada, ou o espírito da criança precisava reencarnar daquele jeito. O pai leu muitos textos que explicavam as consequências, no mundo espiritual, de interromper a gravidez.

Luana aceitou, com a condição de que colocariam o bebê para adoção, assim que ele nascesse. Não queria identificar nos traços da criança a fisionomia do estuprador, que conseguiu enxergar naquela noite de dor. Seria incapaz de amar e cuidar de alguém que a lembraria para sempre da violência sofrida. A gravidez passou devagar, e ela tentou esquecer o que aconteceu, logo após o parto. Ironias da vida fizeram com que se aproximasse de uma funcionária do abrigo para onde mandaram seu filho. E então, mesmo relutando, sentiu como se um fio invisível os ligasse: pedia fotos, vídeos e detalhes. Descobriu que a criança não atraía a atenção de possíveis adotantes. Era moreno, cabelo crespo, e também fora diagnosticado com TDAH. Passaram-se mais alguns anos. E então, naquela noite, seu filho entrou na sala, pela tela da TV. Não o queria. Por mais que sentisse uma ligação, era como ser estuprada novamente, toda vez que o enxergava. Se ela pudesse voltar atrás, teria feito outras escolhas. Ela trouxe o inferno para essa vida, e transformou a vida de uma criança inocente no inferno, lançando-a num mundo onde  só conheceria a rejeição e a indiferença. Olhou para a garrafa, vazia como ela, e desejou morrer.

As religiões foram criadas pelos homens. Bíblia, santos, escrituras, os mais diversos textos e símbolos ligados a esta ou aquela religião, surgiram pelas mentes humanas. Assim, pode-se dizer que as religiões não são a Lei de Deus, mas sim, a Lei dos Homens. Que pode ser utilizada tanto para libertar quanto para tolher. Para auxiliar e ser um instrumento de aperfeiçoamento humano, ou para gerar sofrimento e dor. Muitos foram queimados e apedrejados em nome de Deus- e continuam sendo. Mulheres sempre foram historicamente perseguidas por motivações religiosas. Quando essa lei, que se pretende divina (mas é materializada pelos homens), interfere sobre as decisões da mulher, colocando-se como pró-vida, pró-nascimento, pode acarretar situações de sofrimento e dor extremos. Neste ponto, aqueles que tão ferrenhamente defendem o direito de nascer, podem condenar as mulheres à morte- morte esta que acontece de várias formas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A humanidade será melhor depois da pandemia, eles disseram...

 A humanidade será melhor depois da pandemia, eles disseram...

É recorrente a ideia de que, superada a pandemia de Covid-19, nos tornaremos pessoas melhores.
Imagina-se que o isolamento social e as dificuldades provocadas pela doença, de alguma forma,
constituíram experiências coletivas e individuais que, em tese, resultarão em pessoas mais
empáticas, solidárias e compreensivas.
Bem, basta ler as notícias diárias e acessar os comentários nas redes sociais para constatar que
uma pandemia não será suficiente para nos tornar melhores. Trago três exemplos aqui. O
primeiro deles: notícia sobre a inclusão de apenados nos grupos prioritários para receber a
vacina. Reação: inúmeros comentários indignados, raivosos, nos quais as pessoas afirmam ser
inaceitável que presidiários, esses demônios em forma de gente, a escória, os lixos morais,
mereçam tal tratamento. No entanto, para qualquer indivíduo com um resquício que seja de
humanidade, imunizar a população carcerária é totalmente aceitável e desejável, pois, apesar de
criminosos, eles são seres humanos. Mas este argumento não é aceito por aqueles movidos pela
sanha raivosa e vingativa. Numa discussão sobre o assunto, para não ser tachada de defensora de
bandido, utilizei outra explicação: caso aconteçam surtos nas prisões, é quase impossível
controlá-los, de seguir protocolos e evitar a contaminação em massa. Logo, os presos precisariam
de atendimento nos hospitais, e poderiam disputar um leito de UTI com nossos entes queridos.
Sim, evocar apenas direitos humanos não é suficiente neste caso. Aqueles que não enxergam
nenhuma humanidade nos presidiários talvez preferissem que todos se contaminassem e
morressem, que as cadeias se convertessem em versões modernas das câmaras de gás nazistas. E
pensar com a lógica nazista não me parece uma evolução, em qualquer aspecto.
Outra notícia: doentes do Amazonas são transferidos para hospitais do Rio Grande do Sul.
Reação: como assim? Então os governadores e prefeitos não fizeram a sua parte, e vão exportar
doentes para cá? Entre outros comentários racistas e xenofóbicos que me recuso a reproduzir
aqui. Novamente, nenhum exercício de alteridade, apenas o caldo do ódio e do preconceito sendo
engrossado.
E vamos ao último exemplo: homens pintam extintores de incêndio para vender como se fossem
cilindros de oxigênio. Aqui não temos os comentários, apenas a criatividade brasileira utilizada
da pior forma possível. Para ganhar um dinheiro fácil, exploram a dor das famílias e talvez
provoquem ainda mais mortes.
Esses três exemplos são apenas amostras do pensamento que move uma parcela significativa da
população brasileira. A pandemia só terá fim quando o senso de coletivo imperar –e ele não é
nosso forte. Vejam a quantidade de festas, comemorações, aglomerações em praias e outros
lugares, especialmente de dezembro para cá: sob o pretexto do cansaço e da manutenção da
saúde mental, um festival de desprezo, de negação, de estupidez. Isolamento e distanciamento só
funcionam se não pensarmos apenas em nós, se não priorizarmos unicamente nossas

necessidades e desejos. Vacinas só serão efetivas se a maioria do povo se vacinar. Talvez essa
postura individualista explique, em parte, o fato de o Brasil ser o pior país no enfrentamento da
doença. Além do desastre que ocupa a presidência da República, do mau exemplo que o
governante máximo do país nos dá diariamente, temos a tragédia no interior da consciência de
cada um. E, pelas amostras diárias nos jornais e redes sociais, essa tragédia continuará após a
pandemia, materializada em uma sociedade que não evoluiu moralmente.


 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Existências que afrontam

 Os moradores de rua sempre foram um problema para a administração pública. Num passado recente, medidas como retirar os cobertores de pessoas que dormem nas calçadas ou acordá-las com jatos de água fria foram adotadas pelo governo de São Paulo. Esta semana, o chão debaixo de viadutos, que constitui a cama e o abrigo dos desassistidos, foi remodelado com pedras pontiagudas para evitar a presença dos sem-teto. Como se, retirando-os dali, o problema simplesmente desaparecesse. Está implícita a ideia, nesta ação, já manifestada por Bia Doria em entrevistas:

"Mas olha, falando dos projetos sociais, algo muito importante é assim:as pessoas que estão na rua...Não é correto você chegar lá na rua e dar marmita, porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua.Porque a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua." (Declaração dada em Julho de 2020).

Como se dormir ao relento, exposto ao frio, chuva e calor, fosse o sonho do brasileiro. Bem, há pessoas que não só alimentam quem está na rua, mas também lutam contra as pedras dispostas sob os viadutos, para afugentar os desabrigados: o padre Júlio Lancelotti. Armado sempre com a compaixão e o altruísmo característicos de verdadeiros cristãos, o padre arrancou com marretadas as pedras, demonstrando sua indignação diante de tanta crueldade. Há quem questione a atitude dele, dizendo que ele serve a uma instituição rica e elitista, que poderia muito bem abrir as portas das igrejas para abrigar os aflitos. Polêmicas à parte, é inquestionável que o religioso vivencia sua fé, colocando em prática uma conduta genuinamente cristã. 

Mas acreditar que os sem-teto moram na rua porque querem, ou porque é atrativo, não é um pensamento exclusivo de prefeitos, governadores e primeiras-damas. Costumo abordar a temática moradias com os alunos do segundo ano do Ensino Fundamental, e além dos materiais utilizados para construí-las, dos diferentes tipos de moradias em culturas diversas, falar sobre aqueles que não têm um lugar para se abrigar faz parte da minha abordagem. Gosto de utilizar o poema a seguir, de Roseana Murray:

 

Sem casa

Tem gente que não tem casa, 

mora ao léu, debaixo da ponte.

No céu a lua espia
Esse monte de gente na rua,
Como se fosse papel
Gente tem que ter onde morar,
Um canto, um quarto, uma cama
Para no fim do dia guardar o corpo
Cansado, com carinho, com cuidado,
Porque o corpo é a casa dos pensamentos.

(MURRAY, Roseana. Casas. São Paulo: Formato Editorial)

Numa atividade encaminhada de forma remota aos alunos, coloquei o poema acompanhado de uma imagem que mostrava um homem dormindo na calçada, sobre jornais. Em seguida, a criança deveria elaborar uma frase que expressasse o que ela pensava a respeito das pessoas que não tinham uma moradia e, em decorrência disso, viviam nas ruas. Uma das respostas chamou a atenção: "as pessoas moram nas ruas porque não querem obedecer às autoridades." Obviamente, tanto o vocabulário quanto a ideia implícita na explicação não são características de uma criança de oito anos de idade. Logo, algum adulto ajudou na elaboração da mesma. Essa frase sintetiza o pensamento de grande parte da população brasileira: a existência de algumas pessoas é uma afronta à ordem e a "normalidade". Os sem-teto são preguiçosos, aproveitadores e avessos à autoridade. E, caso insistam em existir, que não seja sob os viadutos, ou dormindo nas calçadas e atrapalhando a circulação das pessoas... Que existam, mas longe de nossos olhos- e de nossa cegueira moral.

Link para matéria com entrevista de Bia Doria:  

 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/07/03/bia-doria-diz-que-e-errado-dar-comida-a-moradores-de-rua-e-um-atrativo.htm

 

 

 

Mas olha, falando dos projetos sociais, algo muito importante é assim: as pessoas que estão na rua... Não é correto você chegar lá na rua e dar marmita, porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua. Por que a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua".... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/07/03/bia-doria-diz-que-e-errado-dar-comida-a-moradores-de-rua-e-um-atrativo.htm?cmpid=copiaecola

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Você foi um dos escolhidos?




Chegamos a mais um final de ano, um ano incomum, atravessado por uma pandemia que nos obrigou a adotar novos hábitos e, por consequência, levou a algumas possíveis aprendizagens coletivas. Considero a mais importante o papel da escola e do ensino presencial na vida de milhões de crianças e adolescentes do mundo todo. Talvez, finalmente, a educação e os professores recebam o reconhecimento que merecem, quando retornarmos, num futuro próximo, às salas de aula. Também o tão propalado home office parece ter vindo para ficar: é perfeitamente possível realizar alguns trabalhos à distância, gerenciando com mais autonomia o tempo e evitando trânsito, jornadas excessivas e reuniões pós-expediente. Além disso, a valorização do serviço público de saúde, em nosso país representado pelo SUS, figurou como consequência direta da pandemia (teve até Ministro da Saúde que não conhecia o SUS e acabou conhecendo).


O problema começa quando se fala em aprendizagens ou conquistas durante a pandemia e focamos na esfera individual. É comum olharmos para o ano que passou e buscarmos aspectos positivos do mesmo em nossas vidas (e até podemos encontrá-los). Há os que conseguem fazer isso sempre, em qualquer situação, enxergando o mundo com as lentes da positividade tóxica - aquela tendência a ver tudo com otimismo exagerado, evitando todo e qualquer aspecto negativo. Temos, então, textos e reflexões que chegam a afirmar que foi “um ótimo ano”, ignorando milhares de mortes, filas de desempregados, profissionais da saúde esgotados e famílias devastadas pela perda e a dor. Afinal, para quem utiliza as lentes da “good vibes”, há um lado bom em tudo, não é mesmo? Junte-se a esta postura a questão religiosa. Se você está vivo, é porque orou o suficiente. Teve fé. Seu Deus é forte, fiel, capaz de livrá-lo do vírus e do leito do hospital. Você foi um escolhido, deve ter algo de especial para continuar vivendo. Mas então… e aqueles que sucumbiram à doença? Não foram suficientemente devotos? Rezaram para o Deus errado? Estariam vivos se acreditassem um pouco mais?


Acredito que não. Talvez, seja um pouco desestabilizador das suas crenças pensar que se você está vivo, é porque é um grande privilegiado (não por intervenção divina): seguiu recebendo o salário; pode trabalhar de casa; ganhou o necessário para não passar fome; conseguiu cumprir os protocolos sem grandes prejuízos. Ao mesmo tempo, há pessoas que foram obrigadas a continuarem se deslocando em ônibus superlotados; que seguiram trabalhando nos mercados, farmácias e comércios essenciais, mais expostos ao vírus; que perderam seus empregos; que passaram fome… Seriam estas pessoas menos dignas da piedade divina? Ou apenas elas não tiveram a mesma sorte que você?


Comemorar nossos próprios privilégios e a nossa simples sorte diante de uma tragédia mundial é desconsiderar o sofrimento alheio. Não se exalte por se considerar um "escolhido". E, para aqueles que dizem que finalmente compreenderam o valor da família, da saúde  e das coisas simples da vida depois das privações e do isolamento sofridos ao longo do ano, tenho só uma coisa a dizer: é muito triste precisar de um evento traumático para chegar a uma conclusão tão óbvia. 



sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O cordão

 Você já agrediu alguém? Utilizou sua força física para dar socos, pontapés, estapear uma pessoa? Se a resposta é afirmativa, que tipo de sentimento ou emoção desencadeou a violência? Medo? Raiva? Ódio? Que tipo de sentimento toma posse de uma pessoa para que ela agrida outra, até a morte, até que a vítima fique imóvel e sua respiração cesse? Que espécie de pensamento passava pela cabeça dos dois algozes que assassinaram João Alberto Silveira Freitas no Carrefour, às vésperas do Dia da Consciência Negra?



Mais que raiva e ódio, provavelmente. Ao socar o rosto de um homem negro, os dois homens brancos legitimam a superioridade que acreditam ter em relação a ele. Não é reação a uma ameaça, nem mesmo o dever de proteger o patrimônio de uma empresa ou zelar pela segurança dos que ali trabalham. Afinal, se um cliente branco precisasse ser retirado do interior da loja, teria o mesmo destino cruel? É o racismo ao vivo, representado pelo joelho que pressiona as costas do homem subjugado, assim como aconteceu nos EUA, com George Floyd. O assassinato no Carrefour revela outro detalhe escabroso: uma mulher filmava tudo. O desenrolar da agressão, o desespero da vítima, os berros de dor. Você conseguiria sacar seu telefone celular da bolsa, calmamente, e filmar a barbárie, placidamente?


Você já imaginou seu pai ir ao mercado, à noite, e em seguida receber a notícia de que ele foi morto, por espancamento, por um segurança e um policial militar?

Você já imaginou seu filho ser morto a caminho da escola, por tiros disparados de um helicóptero da polícia?

Você já imaginou sua filha ser alvejada dentro do transporte escolar, e morrer, no meio de um confronto entre policiais e bandidos?

Você já imaginou o carro da sua família sendo metralhado, durante um passeio no fim de semana, com seus filhos e esposa dentro, sem nenhum motivo?




Se você é branco, talvez não tenha imaginado nada disso, porque simplesmente não precisa. O privilégio branco é isso: poder sair na rua sem medo de ser abordado com violência; não temer que seus filhos sejam mortos de formas estúpidas; fazer compras no mercado, à noite, sem ser espancado pelos seguranças, mesmo que faça algo errado. 


Entre as  inúmeras manifestações do Black Lives Matter que ocorreram ao longo de 2020, nos EUA, um fato inusitado ocorreu: para proteger as pessoas negras que se manifestavam de reações policiais violentas, os brancos participantes criaram cordões de isolamento, se interpondo entre a polícia e os negros. Um cordão do privilégio branco, evitando ainda mais desgraça. Aqui, não houve cordão nenhum: desde o Massacre dos Porongos, em que os Lanceiros Negros foram dizimados, com a colaboração de grandes heróis brancos, até hoje cultuados (que inclusive dão nomes a praças, ruas e cidades), seguimos confortáveis, muitas vezes negando e relativizando o racismo com frases vazias e vídeos do Morgan Freeman.


Está na hora do nosso privilégio branco acordar e dar as mãos, formando um grande cordão humano contra o racismo, para proteger nossos irmãos negros. 

Quando começamos?


sábado, 10 de outubro de 2020

Nas entranhas

 



Olhando para a superfície dos dias atuais, especialmente no Brasil, talvez seja difícil compreender como chegamos a este buraco civilizatório (peço licença para o pessoal do canal Meteoro ao utilizar tal expressão, brilhantemente criada por eles).No entanto, guardo na memória fragmentos de conversas, comentários ouvidos aqui e ali, que volta e meia ressurgem, como se fossem reminiscências explicativas da barbárie.

O ano era 2009. Vivíamos a epidemia de H1N1. Na escola, duas professoras evangélicas conversavam sobre uma delas ter contraído a doença e se curado rapidamente, mesmo estando grávida. A outra comentou: “você é de Deus, por isso foi curada.” Desta fala, conclui-se que, aqueles que morreram em decorrência da doença, “não eram de Deus”- por serem adeptos de outra religião (ou de nenhuma).

Em 2013, durante um encontro do Pacto Nacional para a Alfabetização na Idade Certa, vivíamos a onda de protestos contra a corrupção, iniciada pela indignação causada pelo aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus. Entre um cafezinho e uma bolachinha na hora do intervalo, os professores se reuniam, conversavam, contavam piadas. Uma professora, ao falar sobre a corrupção: “Tem que voltar a ditadura mesmo. Era tudo melhor. Tinha segurança nas ruas. Só se dava mal quem estava fazendo algo errado.” (Mais tarde, esta professora estaria usando a foto do olho choroso com bandeira do Brasil ao fundo, em suas redes sociais, e defendendo a “revolução de 1964”.)

Alguns meses depois, na reunião pedagógica de início de ano letivo, uma professora, também evangélica, diante da questão “como abordar o uso de drogas em sala de aula?”, respondeu: “Eu digo que na Bíblia está escrito que o homem reinará sobre todos os animais e todas as plantas, então, uma planta (maconha) não pode dominar as pessoas.” Uma abordagem religiosa da questão resolveria o problema das drogas, na visão da professora.

Já em 2015, diante de uma rebelião numa unidade prisional superlotada, outra professora, em outra escola, cravou: “Tem que entrar e matar tudo mesmo. São bandidos, se fossem bons, não estariam na cadeia.” Horrorizada, tentei argumentar, citando o excelente documentário “Sem pena”, que fala sobre a realidade dos presídios brasileiros, nos quais grande parte dos detentos passam anos sem julgamento, muitos deles sendo inocentes.  Não creio que a professora tenha assistido ao documentário, muito menos reavaliado seu posicionamento diante dos fatos.



Mais recentemente, em 2018, enquanto aguardava um corte de cabelo, escutei a conversa entre um cliente e o dono do salão. Falavam sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. O cliente, branco, de classe média alta, discorria sobre o fato de os cidadãos, em sua maioria negros, pobres, moradores das comunidades, estarem sendo revistados ao sair de casa. Segundo ele, tudo certo, afinal, quem não deve, não teme, qual o problema de ser revistado e mostrar seus documentos, se não é bandido ou ladrão?

Ao rememorar essas falas, tudo fica mais claro. A fé tomando o espaço da Ciência e revelando alguns mais merecedores da vida do que outros. O fetiche pelo autoritarismo, a nostalgia em reviver uma época na qual a liberdade não existia, mas alguns tinham a sensação de que era tudo melhor, porque a imprensa era censurada e publicava receita de bolo no lugar da verdade. A sanha punitivista, o desejo de vingança e de “limpar” a sociedade, o combate à violência com a morte, o “bandido bom é bandido morto” clamado entre paredes de um espaço educativo, saindo dos lábios de uma educadora. O culto à repressão, a tentativa de minimizar a humilhação do favelado, afinal, o cliente do salão jamais será submetido ao constrangimento de uma revista diária, no seu condomínio de luxo- talvez nem mesmo “merecendo”, caso cometa um delito grave. A justiça não é cega - e enxerga especialmente a cor da pele.

Estava tudo lá, nas entranhas do pensamento do brasileiro (ou de grande parte dele). Examinemos as vísceras, para desvelar essa identidade tosca e retrógrada, que prefere armas a livros, que desdenha da Ciência, que elege a ignorância e cultua a violência, que apenas reproduz as desigualdades e preconceitos de séculos.

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