A humanidade será melhor depois da pandemia, eles disseram...
É recorrente a ideia de que, superada a pandemia de Covid-19, nos tornaremos pessoas melhores.
Imagina-se que o isolamento social e as dificuldades provocadas pela doença, de alguma forma,
constituíram experiências coletivas e individuais que, em tese, resultarão em pessoas mais
empáticas, solidárias e compreensivas.
Bem, basta ler as notícias diárias e acessar os comentários nas redes sociais para constatar que
uma pandemia não será suficiente para nos tornar melhores. Trago três exemplos aqui. O
primeiro deles: notícia sobre a inclusão de apenados nos grupos prioritários para receber a
vacina. Reação: inúmeros comentários indignados, raivosos, nos quais as pessoas afirmam ser
inaceitável que presidiários, esses demônios em forma de gente, a escória, os lixos morais,
mereçam tal tratamento. No entanto, para qualquer indivíduo com um resquício que seja de
humanidade, imunizar a população carcerária é totalmente aceitável e desejável, pois, apesar de
criminosos, eles são seres humanos. Mas este argumento não é aceito por aqueles movidos pela
sanha raivosa e vingativa. Numa discussão sobre o assunto, para não ser tachada de defensora de
bandido, utilizei outra explicação: caso aconteçam surtos nas prisões, é quase impossível
controlá-los, de seguir protocolos e evitar a contaminação em massa. Logo, os presos precisariam
de atendimento nos hospitais, e poderiam disputar um leito de UTI com nossos entes queridos.
Sim, evocar apenas direitos humanos não é suficiente neste caso. Aqueles que não enxergam
nenhuma humanidade nos presidiários talvez preferissem que todos se contaminassem e
morressem, que as cadeias se convertessem em versões modernas das câmaras de gás nazistas. E
pensar com a lógica nazista não me parece uma evolução, em qualquer aspecto.
Outra notícia: doentes do Amazonas são transferidos para hospitais do Rio Grande do Sul.
Reação: como assim? Então os governadores e prefeitos não fizeram a sua parte, e vão exportar
doentes para cá? Entre outros comentários racistas e xenofóbicos que me recuso a reproduzir
aqui. Novamente, nenhum exercício de alteridade, apenas o caldo do ódio e do preconceito sendo
engrossado.
E vamos ao último exemplo: homens pintam extintores de incêndio para vender como se fossem
cilindros de oxigênio. Aqui não temos os comentários, apenas a criatividade brasileira utilizada
da pior forma possível. Para ganhar um dinheiro fácil, exploram a dor das famílias e talvez
provoquem ainda mais mortes.
Esses três exemplos são apenas amostras do pensamento que move uma parcela significativa da
população brasileira. A pandemia só terá fim quando o senso de coletivo imperar –e ele não é
nosso forte. Vejam a quantidade de festas, comemorações, aglomerações em praias e outros
lugares, especialmente de dezembro para cá: sob o pretexto do cansaço e da manutenção da
saúde mental, um festival de desprezo, de negação, de estupidez. Isolamento e distanciamento só
funcionam se não pensarmos apenas em nós, se não priorizarmos unicamente nossas
necessidades e desejos. Vacinas só serão efetivas se a maioria do povo se vacinar. Talvez essa
postura individualista explique, em parte, o fato de o Brasil ser o pior país no enfrentamento da
doença. Além do desastre que ocupa a presidência da República, do mau exemplo que o
governante máximo do país nos dá diariamente, temos a tragédia no interior da consciência de
cada um. E, pelas amostras diárias nos jornais e redes sociais, essa tragédia continuará após a
pandemia, materializada em uma sociedade que não evoluiu moralmente.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
A humanidade será melhor depois da pandemia, eles disseram...
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Existências que afrontam
Os moradores de rua sempre foram um problema para a administração pública. Num passado recente, medidas como retirar os cobertores de pessoas que dormem nas calçadas ou acordá-las com jatos de água fria foram adotadas pelo governo de São Paulo. Esta semana, o chão debaixo de viadutos, que constitui a cama e o abrigo dos desassistidos, foi remodelado com pedras pontiagudas para evitar a presença dos sem-teto. Como se, retirando-os dali, o problema simplesmente desaparecesse. Está implícita a ideia, nesta ação, já manifestada por Bia Doria em entrevistas:
"Mas olha, falando dos projetos sociais, algo muito importante é assim:as pessoas que estão na rua...Não é correto você chegar lá na rua e dar marmita, porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua.Porque a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua." (Declaração dada em Julho de 2020).
Como se dormir ao relento, exposto ao frio, chuva e calor, fosse o sonho do brasileiro. Bem, há pessoas que não só alimentam quem está na rua, mas também lutam contra as pedras dispostas sob os viadutos, para afugentar os desabrigados: o padre Júlio Lancelotti. Armado sempre com a compaixão e o altruísmo característicos de verdadeiros cristãos, o padre arrancou com marretadas as pedras, demonstrando sua indignação diante de tanta crueldade. Há quem questione a atitude dele, dizendo que ele serve a uma instituição rica e elitista, que poderia muito bem abrir as portas das igrejas para abrigar os aflitos. Polêmicas à parte, é inquestionável que o religioso vivencia sua fé, colocando em prática uma conduta genuinamente cristã.
Mas acreditar que os sem-teto moram na rua porque querem, ou porque é atrativo, não é um pensamento exclusivo de prefeitos, governadores e primeiras-damas. Costumo abordar a temática moradias com os alunos do segundo ano do Ensino Fundamental, e além dos materiais utilizados para construí-las, dos diferentes tipos de moradias em culturas diversas, falar sobre aqueles que não têm um lugar para se abrigar faz parte da minha abordagem. Gosto de utilizar o poema a seguir, de Roseana Murray:
Sem casa
Tem gente que não tem casa,
mora ao léu, debaixo da ponte.
(MURRAY, Roseana. Casas. São Paulo: Formato Editorial)
Numa atividade encaminhada de forma remota aos alunos, coloquei o poema acompanhado de uma imagem que mostrava um homem dormindo na calçada, sobre jornais. Em seguida, a criança deveria elaborar uma frase que expressasse o que ela pensava a respeito das pessoas que não tinham uma moradia e, em decorrência disso, viviam nas ruas. Uma das respostas chamou a atenção: "as pessoas moram nas ruas porque não querem obedecer às autoridades." Obviamente, tanto o vocabulário quanto a ideia implícita na explicação não são características de uma criança de oito anos de idade. Logo, algum adulto ajudou na elaboração da mesma. Essa frase sintetiza o pensamento de grande parte da população brasileira: a existência de algumas pessoas é uma afronta à ordem e a "normalidade". Os sem-teto são preguiçosos, aproveitadores e avessos à autoridade. E, caso insistam em existir, que não seja sob os viadutos, ou dormindo nas calçadas e atrapalhando a circulação das pessoas... Que existam, mas longe de nossos olhos- e de nossa cegueira moral.
Link para matéria com entrevista de Bia Doria:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/07/03/bia-doria-diz-que-e-errado-dar-comida-a-moradores-de-rua-e-um-atrativo.htm
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
Você foi um dos escolhidos?
Chegamos a mais um final de ano, um ano incomum, atravessado por uma pandemia que nos obrigou a adotar novos hábitos e, por consequência, levou a algumas possíveis aprendizagens coletivas. Considero a mais importante o papel da escola e do ensino presencial na vida de milhões de crianças e adolescentes do mundo todo. Talvez, finalmente, a educação e os professores recebam o reconhecimento que merecem, quando retornarmos, num futuro próximo, às salas de aula. Também o tão propalado home office parece ter vindo para ficar: é perfeitamente possível realizar alguns trabalhos à distância, gerenciando com mais autonomia o tempo e evitando trânsito, jornadas excessivas e reuniões pós-expediente. Além disso, a valorização do serviço público de saúde, em nosso país representado pelo SUS, figurou como consequência direta da pandemia (teve até Ministro da Saúde que não conhecia o SUS e acabou conhecendo).
O problema começa quando se fala em aprendizagens ou conquistas durante a pandemia e focamos na esfera individual. É comum olharmos para o ano que passou e buscarmos aspectos positivos do mesmo em nossas vidas (e até podemos encontrá-los). Há os que conseguem fazer isso sempre, em qualquer situação, enxergando o mundo com as lentes da positividade tóxica - aquela tendência a ver tudo com otimismo exagerado, evitando todo e qualquer aspecto negativo. Temos, então, textos e reflexões que chegam a afirmar que foi “um ótimo ano”, ignorando milhares de mortes, filas de desempregados, profissionais da saúde esgotados e famílias devastadas pela perda e a dor. Afinal, para quem utiliza as lentes da “good vibes”, há um lado bom em tudo, não é mesmo? Junte-se a esta postura a questão religiosa. Se você está vivo, é porque orou o suficiente. Teve fé. Seu Deus é forte, fiel, capaz de livrá-lo do vírus e do leito do hospital. Você foi um escolhido, deve ter algo de especial para continuar vivendo. Mas então… e aqueles que sucumbiram à doença? Não foram suficientemente devotos? Rezaram para o Deus errado? Estariam vivos se acreditassem um pouco mais?
Acredito que não. Talvez, seja um pouco desestabilizador das suas crenças pensar que se você está vivo, é porque é um grande privilegiado (não por intervenção divina): seguiu recebendo o salário; pode trabalhar de casa; ganhou o necessário para não passar fome; conseguiu cumprir os protocolos sem grandes prejuízos. Ao mesmo tempo, há pessoas que foram obrigadas a continuarem se deslocando em ônibus superlotados; que seguiram trabalhando nos mercados, farmácias e comércios essenciais, mais expostos ao vírus; que perderam seus empregos; que passaram fome… Seriam estas pessoas menos dignas da piedade divina? Ou apenas elas não tiveram a mesma sorte que você?
Comemorar nossos próprios privilégios e a nossa simples sorte diante de uma tragédia mundial é desconsiderar o sofrimento alheio. Não se exalte por se considerar um "escolhido". E, para aqueles que dizem que finalmente compreenderam o valor da família, da saúde e das coisas simples da vida depois das privações e do isolamento sofridos ao longo do ano, tenho só uma coisa a dizer: é muito triste precisar de um evento traumático para chegar a uma conclusão tão óbvia.
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
O cordão
Você já agrediu alguém? Utilizou sua força física para dar socos, pontapés, estapear uma pessoa? Se a resposta é afirmativa, que tipo de sentimento ou emoção desencadeou a violência? Medo? Raiva? Ódio? Que tipo de sentimento toma posse de uma pessoa para que ela agrida outra, até a morte, até que a vítima fique imóvel e sua respiração cesse? Que espécie de pensamento passava pela cabeça dos dois algozes que assassinaram João Alberto Silveira Freitas no Carrefour, às vésperas do Dia da Consciência Negra?

Mais que raiva e ódio, provavelmente. Ao socar o rosto de um homem negro, os dois homens brancos legitimam a superioridade que acreditam ter em relação a ele. Não é reação a uma ameaça, nem mesmo o dever de proteger o patrimônio de uma empresa ou zelar pela segurança dos que ali trabalham. Afinal, se um cliente branco precisasse ser retirado do interior da loja, teria o mesmo destino cruel? É o racismo ao vivo, representado pelo joelho que pressiona as costas do homem subjugado, assim como aconteceu nos EUA, com George Floyd. O assassinato no Carrefour revela outro detalhe escabroso: uma mulher filmava tudo. O desenrolar da agressão, o desespero da vítima, os berros de dor. Você conseguiria sacar seu telefone celular da bolsa, calmamente, e filmar a barbárie, placidamente?
Você já imaginou seu pai ir ao mercado, à noite, e em seguida receber a notícia de que ele foi morto, por espancamento, por um segurança e um policial militar?
Você já imaginou seu filho ser morto a caminho da escola, por tiros disparados de um helicóptero da polícia?
Você já imaginou sua filha ser alvejada dentro do transporte escolar, e morrer, no meio de um confronto entre policiais e bandidos?
Você já imaginou o carro da sua família sendo metralhado, durante um passeio no fim de semana, com seus filhos e esposa dentro, sem nenhum motivo?
Se você é branco, talvez não tenha imaginado nada disso, porque simplesmente não precisa. O privilégio branco é isso: poder sair na rua sem medo de ser abordado com violência; não temer que seus filhos sejam mortos de formas estúpidas; fazer compras no mercado, à noite, sem ser espancado pelos seguranças, mesmo que faça algo errado.
Entre as inúmeras manifestações do Black Lives Matter que ocorreram ao longo de 2020, nos EUA, um fato inusitado ocorreu: para proteger as pessoas negras que se manifestavam de reações policiais violentas, os brancos participantes criaram cordões de isolamento, se interpondo entre a polícia e os negros. Um cordão do privilégio branco, evitando ainda mais desgraça. Aqui, não houve cordão nenhum: desde o Massacre dos Porongos, em que os Lanceiros Negros foram dizimados, com a colaboração de grandes heróis brancos, até hoje cultuados (que inclusive dão nomes a praças, ruas e cidades), seguimos confortáveis, muitas vezes negando e relativizando o racismo com frases vazias e vídeos do Morgan Freeman.
Está na hora do nosso privilégio branco acordar e dar as mãos, formando um grande cordão humano contra o racismo, para proteger nossos irmãos negros.
Quando começamos?
sábado, 10 de outubro de 2020
Nas entranhas
Olhando
para a superfície dos dias atuais, especialmente no Brasil, talvez seja difícil
compreender como chegamos a este buraco civilizatório (peço licença para o
pessoal do canal Meteoro ao utilizar tal expressão, brilhantemente criada por
eles).No entanto, guardo na memória fragmentos de conversas, comentários ouvidos aqui e
ali, que volta e meia ressurgem, como se fossem reminiscências explicativas da
barbárie.
O
ano era 2009. Vivíamos a epidemia de H1N1. Na escola, duas professoras evangélicas
conversavam sobre uma delas ter contraído a doença e se curado rapidamente,
mesmo estando grávida. A outra comentou: “você é de Deus, por isso foi curada.”
Desta fala, conclui-se que, aqueles que morreram em decorrência da doença, “não
eram de Deus”- por serem adeptos de outra religião (ou de nenhuma).
Em
2013, durante um encontro do Pacto Nacional para a Alfabetização na Idade
Certa, vivíamos a onda de protestos contra a corrupção, iniciada pela
indignação causada pelo aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus.
Entre um cafezinho e uma bolachinha na hora do intervalo, os professores se
reuniam, conversavam, contavam piadas. Uma professora, ao falar sobre a
corrupção: “Tem que voltar a ditadura mesmo. Era tudo melhor. Tinha segurança
nas ruas. Só se dava mal quem estava fazendo algo errado.” (Mais tarde, esta
professora estaria usando a foto do olho choroso com bandeira do Brasil ao
fundo, em suas redes sociais, e defendendo a “revolução de 1964”.)
Alguns
meses depois, na reunião pedagógica de início de ano letivo, uma professora,
também evangélica, diante da questão “como abordar o uso de drogas em sala de
aula?”,
respondeu: “Eu digo que na Bíblia está escrito que o homem reinará sobre todos
os animais e todas as plantas, então, uma planta (maconha) não pode dominar as
pessoas.” Uma abordagem religiosa da questão resolveria o problema das drogas,
na visão da professora.
Já
em 2015, diante de uma rebelião numa unidade prisional superlotada, outra
professora, em outra escola, cravou: “Tem que entrar e matar tudo mesmo. São
bandidos, se fossem bons, não estariam na cadeia.” Horrorizada, tentei
argumentar, citando o excelente documentário “Sem pena”, que fala sobre a
realidade dos presídios brasileiros, nos quais grande parte dos detentos passam
anos sem julgamento, muitos deles sendo inocentes. Não creio que a professora tenha assistido ao
documentário, muito menos reavaliado seu posicionamento diante dos fatos.
Mais
recentemente, em 2018, enquanto aguardava um corte de cabelo, escutei a
conversa entre um cliente e o dono do salão. Falavam sobre a intervenção
militar no Rio de Janeiro. O cliente, branco, de classe média alta, discorria
sobre o fato de os cidadãos, em sua maioria negros, pobres, moradores das
comunidades, estarem sendo revistados ao sair de casa. Segundo ele, tudo certo,
afinal, quem não deve, não teme, qual o problema de ser revistado e mostrar
seus documentos, se não é bandido ou ladrão?
Ao
rememorar essas falas, tudo fica mais claro. A fé tomando o espaço da Ciência e
revelando alguns mais merecedores da vida do que outros. O fetiche pelo
autoritarismo, a nostalgia em reviver uma época na qual a liberdade não
existia, mas alguns tinham a sensação de que era tudo melhor, porque a imprensa
era censurada e publicava receita de bolo no lugar da verdade. A sanha
punitivista, o desejo de vingança e de “limpar” a sociedade, o combate à
violência com a morte, o “bandido bom é bandido morto” clamado entre paredes de
um espaço educativo, saindo dos lábios de uma educadora. O culto à repressão, a
tentativa de minimizar a humilhação do favelado, afinal, o cliente do salão
jamais será submetido ao constrangimento de uma revista diária, no seu
condomínio de luxo- talvez nem mesmo “merecendo”, caso cometa um delito grave.
A justiça não é cega - e enxerga especialmente a cor da pele.
Estava
tudo lá, nas entranhas do pensamento do brasileiro (ou de grande parte dele). Examinemos
as vísceras, para desvelar essa identidade tosca e retrógrada, que prefere
armas a livros, que desdenha da Ciência, que elege a ignorância e cultua a
violência, que apenas reproduz as desigualdades e preconceitos de séculos.
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Maconha para quem?
Em
recente entrevista a uma rádio local, o deputado Osmar Terra (MDB-RS) deu um
show de desinformação a respeito do uso medicinal da Cannabis, mais conhecida
como maconha. Em sua fala, o político colocou-se veementemente contra a
aprovação do substitutivo do Projeto de Lei 399/2015, do deputado Paulo
Teixeira (PT-SP), que prevê o aumento da oferta das medicações produzidas a
partir de princípios ativos da planta. Enaltecendo a política (fracassada) de
guerra às drogas, Osmar Terra conclama seus seguidores e a população em geral a
se manifestarem contra tal legislação.
Trago
aqui algumas reflexões baseadas nos estudos de dois grandes pesquisadores da
área. O primeiro deles, o neurocientista Sidarta Ribeiro, PhD pela Universidade
de Duke (EUA) e diretor do Instituto do Cérebro da UFRN, afirma que a maconha,
ao contrário do que Terra propaga, contém substâncias anti-inflamatórias,
que estimulam o crescimento dos ossos, antiepiléticas e antibacterianas. Por isso,
várias doenças são tratáveis com maconha: autismo, carcinoma, distonia, dor
crônica, depressão, encefalopatia, epilepsia, esclerose, esquizofrenia,
fibromialgia, paralisia cerebral, Parkinson, retardo mental... Muitas pessoas,
portadoras destas doenças, seriam beneficiadas, caso o projeto fosse aprovado. Os
medicamentos à base de cannabis são importados, caríssimos, chegando a custar
R$ 2.500,00 a dose.
Mas
Osmar imagina que tal aprovação fará com que em cada família se instale o vício
das drogas, e que os jovens se tornem zumbis puxadores de fumo, que têm seus
cérebros destruídos pelo cigarro do capeta (outra ideia errônea, a de que a
maconha destrói neurônios. O professor
Sidarta afirma que “a ciência por muito tempo serviu à proibição.
E era uma má ciência, financiada para provar mentiras. Isso nos anos sessenta, maconha
mata neurônios. Que mentira! Maconha promove novos neurônios e promove novas
sinapses”). Ou seja, muitos anos se passaram, estudos e pesquisas foram feitos,
mas a população em geral continua à mercê de políticos que propagam falsas
ideias a respeito do tema.
Isto nos leva a outro estudioso do tema: Carl Hart, neurocientista
norte-americano, professor da Universidade de Columbia e autor do livro “Um
preço muito alto”. Para ele, é necessário acabar com a desinformação a respeito
das drogas, combatendo falsas premissas.
Em suas palavras: “Não deveríamos prender pessoas. É preciso manter os usuários e
dependentes fora da prisão, onde há outros problemas e doenças. Deveríamos
multá-las ou dar um alerta. Não deveríamos fazer uma guerra contra drogas
porque não há uma guerra contra dirigir carros. Precisamos mudar nossa
abordagem se queremos aumentar a segurança de nossa sociedade.”
O
autor é um crítico ferrenho da política de guerra às drogas, exaltada pelo
deputado Osmar. Para entender o posicionamento dele, pense nas últimas notícias
que você viu sobre combate às drogas no seu município: quase sempre, prisão de
pequenos traficantes, com quantidades insignificantes de entorpecentes...Dificilmente
a polícia consegue prender os grandes traficantes, que operam os esquemas- e,
quando consegue, eles continuam fazendo o seu “trabalho” de dentro das prisões.
Ficam as forças policiais enxugando gelo, quando o foco principal do combate às
drogas deveria ser outro- uma questão de saúde pública.
Se
olharmos para as estatísticas, veremos que a droga que mais impacta na saúde e aumenta
os índices de violência é legalizada e socialmente aceita, tendo seu consumo
estimulado amplamente pela mídia: o álcool. E ninguém está pensando em reavivar
uma lei seca, até porque a indústria das bebidas alcoólicas é extremamente
lucrativa. Ah, e se você costuma tomar aquele tranquilizante antes de dormir,
saiba que está usando uma droga. É
preciso conhecer a história das drogas e por que algumas se tornaram legais,
enquanto outras são vistas pelos deputados conservadores como se fossem a
encarnação do diabo na Terra. É tudo uma questão de estudo, informação, esclarecimento.
Finalizo com as palavras de Carl:
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
Enfim, a meritocracia

Há uns dez anos, na escola
em que trabalhava, havia um aluno que tocava o terror em determinada turma
(sempre tem, ao menos um). Era aquele combo: rebelde, agressivo, recusava-se a
fazer as atividades, só bagunçava. A professora, que já esgotara seus recursos
para lidar com a situação, decidiu adotar uma estratégia inusitada: chamou o
menino para uma conversa e combinaram que, se ele se comportasse durante as
aulas (o desespero era tanto que nem a aprendizagem estava em jogo, o negócio
era conseguir dar aula para os demais alunos), ganharia certa quantia, em
dinheiro, por semana.
Acordo aceito, eis que a
criatura passa as duas primeiras semanas diferente, sem aprontar, até
participando das aulas. Uma tranquilidade. Mas ao final da terceira semana, o
aluno pede que a professora aumente o valor pago.
Corta para alguns anos mais
tarde, mesma escola. Reunião pedagógica de início de ano. Professores
preocupados com o desinteresse de uma parcela considerável dos alunos. Qual
estratégia adotar? Eis que surge a sugestão de uma das professoras: na escola
em que trabalhou, anteriormente, os bons alunos, aqueles que aprendiam, que se
esforçavam, entravam em férias vinte dias antes. Os demais, que não tinham
demonstrado o “rendimento” esperado, permaneciam na escola, para “recuperar” o
que não aprenderam.
Em ambos os casos, existe a
ideia de premiar, seja pela mudança na conduta, seja pelo esforço e aprendizagem
demonstrados. O prêmio pode vir em forma de dinheiro ou de férias antecipadas.
Duas questões complicadas estão envolvidas nessa ideia de premiar alunos.
Primeiramente, o que é um
bom aluno? Aquele que aprende? Que não demonstra dificuldades? Que obtém as
melhores notas? Que se comporta de forma adequada? Se o bom aluno é aquele que
aprende e se esforça, devemos concluir, então, que existe o mau aluno, aquele que
vai aos trancos e barrancos, mesmo que seja em virtude de distúrbios ou
deficiências? Vamos dizer que autistas e disléxicos são maus alunos agora, e
responsabilizá-los pela não aprendizagem, eximindo o professor e a escola do
seu papel?
O outro ponto é aquele que
coloca a aprendizagem ou o estudo como algo chato, enfadonho, difícil, uma obrigação-
nesse contexto, entendemos que é necessário premiar o aluno de alguma forma,
dar um incentivo para que estude. O conhecimento deixa de ser um prazer para se
tornar algo obrigatório- o qual só faz sentido se existe uma recompensa. Tenho
lutado contra essa ideia no que diz respeito à atitude de alguns pais- se fizer
o tema, pode usar o celular. Se passar de ano, ganha a bicicleta.
E eis que o governo federal, através do MEC, lança a ideia de premiar, em dinheiro, os melhores alunos e atletas de escolas públicas. Enfim, a meritocracia. E o aluno que não é bom em matemática e ciências, reprovando em tais disciplinas, mas tem um talento excepcional para desenhar, como fica? E os alunos com dificuldades de aprendizagem ou deficiências, como serão premiados? Serão considerados maus alunos, por mais que se esforcem e superem diariamente suas limitações? Discutir os modelos de ensino das escolas, metodologias, recursos, capacitação de professores, projetos inovadores- não se fala nisso.
O discurso meritocrático está, enfim, tornando-se política pública.








