sábado, 5 de julho de 2014

Drogas: por que há pessoas que não usam?



          As razões pelas quais as pessoas tornam-se dependentes químicas, ou seja, viciadas em drogas, lícitas ou ilícitas, movimentam inúmeros debates entre especialistas e constituem tema de pesquisas frequentes.
          São diversos os motivos apontados para o uso de drogas: por curiosidade, para adequar-se ao grupo de convívio, para aliviar as tensões do cotidiano (ou mesmo fugir delas), para alterar as percepções...
          Algumas pessoas conseguem utilizar essas substâncias de forma controlada e por toda a vida (seria o tal uso recreativo); já outras acabam escravas delas (os dependentes químicos).
         Em 2013 um estudo apontou que o Brasil é o segundo maior consumidor  mundial de cocaína e derivados, atrás apenas dos Estados Unidos, de acordo com o segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). São milhões de pessoas utilizando essas substâncias, e o número aumenta a cada ano.
        Diante desses dados preocupantes, não seria conveniente estudar por que há pessoas que não utilizam drogas, que dispensam totalmente até mesmo um simples drinque ou cervejinha no final  de semana? O que há em comum nessa parcela da população que não sente necessidade alguma de utilizar drogas, lícitas ou ilícitas, ao longo de suas vidas?
         Seriam essas pessoas mais inteligentes e bem informadas? Creio que não. Informação é o que não nos falta: são inúmeros os programas que alertam sobre os perigos e consequências dos vícios em geral; nas escolas é de praxe que os alunos assistam a palestras sobre o assunto, ano após ano. Apesar das informações e imagens contidas nas embalagens de cigarros comuns, demonstrando as doenças causadas pelo fumo, os fumantes veementemente ignoram tais alertas. Não é por falta de informação que milhares de jovens experimentam drogas todos os dias. E de inteligência também: vejamos o exemplo de Renato Russo, grande poeta, compositor, músico, professor de Língua Inglesa,  QI acima da média. Nada disso livrou o artista do abuso do álcool e outras substâncias.
              Quem sabe então a resposta estaria na forma como essas pessoas, não adeptas às drogas, foram criadas? Seriam o ambiente familiar e os valores ensinados pelos pais os responsáveis por tal “blindagem”? Parece que não: há inúmeros casos de adictos que foram criados por famílias amorosas, atenciosas, com valores morais e éticos presentes... Mesmo assim, em algum momento de suas vidas, sentiram a necessidade de experimentar drogas.
             Ao procurar dados sobre essa questão na internet, acessei inúmeros sites que tentam responder por que as pessoas usam drogas. Mas nenhum que explique o que está por trás do comportamento oposto.
         Acredito que um dos fatores que pode afastar o ser humano das drogas é a autoestima elevada: quem está satisfeito consigo mesmo tende a não buscar felicidade, fuga ou alteração dos sentidos; não necessita de nenhum tipo de substância para distrair-se, preencher um vazio existencial ou sentir-se melhor. Pessoas que se gostam tendem a cuidar da saúde e da aparência, evitam comportamentos de risco e não condicionam a felicidade a acontecimentos ou fatos externos. Bem que os estudiosos poderiam dedicar um tempinho a esse tema e realizar pesquisas que tentem explicar por que as pessoas NÃO usam drogas.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Natureza X artificialidade



          Bons escritores nos marcam para sempre. Considero um dever moral conhecê-los, através da leitura de suas obras. Lendo “A desobediência civil”, de Henry David Thoureau, tive a convicção de estar entrando no universo de um gênio. Além de ser radicalmente contrário a escravidão, foi historiador e filósofo, já em 1849 preocupava-se com os rumos do progresso e considerava lamentável os efeitos da revolução industrial ao planeta. Sim, em pleno século XIX, era um  ecologista. Aliás, o pensamento que norteia seu livro é justamente a valorização da natureza, afirmando que a sua contemplação levava à felicidade. Ele próprio, em idade avançada, empreendia longas caminhadas diárias de três ou quatro horas mata adentro, tendo cuidado para manter-se longe de estradas (sinal da civilização), das cidades e da sociedade. Dizia que, sem isso, seus dias não tinham sentido.
           Fiquei maravilhada e espantada ao conhecer tal pensamento. O que diria Thoureau nos dias de hoje? Supondo que ele entrasse numa máquina do tempo e fosse transportado para 2014,  qual  seria sua reação diante dos exemplares da raça  humana que habitam principalmente os grandes centros urbanos? Imagino-o passeando pelos shoppings centers, redutos da maioria dos mortais em busca do frescor do ar condicionado nos momentos de lazer, um local artificial mas que oferece segurança e conforto. Ou ainda o escritor presenciando a fuga em massa das grandes capitais ao aproximar-se um feriado prolongado, homens e mulheres estressados e entediados das suas rotinas buscando um pouco de areia e água salgada (mesmo poluída), presos por horas a engarrafamentos torturantes para só então desfrutar de alguns momentos raros junto à “natureza”. Ou ainda, que diria Thoreau ao saber que, para fugir do progresso que tanto almejamos e resultou em destruição, caos, desordem e insegurança, tivemos a brilhante ideia de construir redutos de paz, tranquilidade e segurança, os condomínios fechados. Creio que o escritor chegaria a conclusão que, lá em 1849, estava totalmente certo, e que a raça humana está presa numa armadilha armada por ela mesma. Sim, pois para sentir-se seguro e livre, o homem contemporâneo necessita habitar lugares fechados, monitorados 24 horas por dia, não sem antes passar por uma guarita para entrar em casa. Ao visitar a casa de um parente num desses nobres lugares, senti a artificialidade em tudo: no lago imenso, localizado bem no centro do condomínio; no sobrado onde morava meu familiar, espremido entre duas outras construções; mas, sobretudo, no pequenino jardim que disputava espaço com o deck e uma modesta piscina, numa estreita faixa de terreno. Nada mais articial. Aliás, sobre isso, Thoreau dá um ótimo exemplo em seu livro:
“...deste pobre arremedo de Natureza e Arte que chamo de meu jardim da frente? Ele foi feito num esforço de limpar e criar uma aparência decente depois que o pedreiro e o carpinteiro terminaram seu serviço, embora essa aparência se preste muito mais aos passantes do que ao morador.”
          É, Thoureau descobriria que os homens modernos vivem em meio  a artificialidade e estão pouco ligando para a natureza, sua própria essência. Somos cada vez mais artificiais. Estudiosos e filósofos questionam se um dia as máquinas tomarão o lugar dos homens. Em grande parte, já estão tomando. Mas poderiam as máquinas se transformarem em pessoas? Não sabemos, mas é bem possível que o contrário aconteça: nós, tão preocupados em produzir, progredir, consumir, temos pouco espaço para a contemplação; realizamos as tarefas diárias de forma apressada e mecânica; dispensamos conversas olho no olho para acessar redes sociais com zilhões de “amigos” que jamais conheceremos pessoalmente. Estamos cada vez mais mecânicos, destituídos de emoções. Parecemos robôs. Estamos nos transformando em máquinas. Recente pesquisa constatou que há uma relação direta entre a publicação de imagens “selfies” e a prática sexual: quanto mais fotos o indivíduo posta nas redes sociais, menos relações sexuais ele tem. Ora, nada mais natural  e essencial aos humanos que a prática de sexo. Já o comportamento obsessivo de ficar o dia todo preocupado em tirar fotos (ensaiadas, resultantes de  muitas poses e filtros) nada tem de natural.
              Pois bem, nosso amigo Thoreau ficaria abismado, cometeria suicídio ou entraria apressadamente na sua máquina do tempo para fugir de toda essa loucura. Mas imaginemos que por um acaso ele se encontrasse com outro gênio, brasileiro, e nosso contemporâneo: Sebastião Salgado, fotógrafo incrível que dispensa apresentações. Salgado, em seu projeto Gênesis, percorreu diversos lugares do planeta em busca de imagens de lugares intocados, retratando a natureza. Um fotógrafo que contempla e registra em preto e branco tudo aquilo que Thoureau amava. Seria memorável.
          Mas toda essa história é apenas um pequeno exercício de imaginação. Viagens no tempo não são possíveis, assim como não podemos negar o progresso humano, com todas as consequências positivas e negativas. Resta-nos buscar nos livros e obras dos gênios e pessoas inspiradas um significado para toda essa loucura moderna. Como diz Thoureau: “Cada manhã era um alegre convite para que eu conferisse à minha vida a mesma simplicidade, diria até inocência, da própria Natureza”.
             E, como podemos apreciar nas belas imagens de Sebastião Salgado, também ela, a Natureza, e não a artificialidade, é o que nos comove.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Educação no papel



Quando o ideal e o real irão se aproximar quando falamos em educação pública brasileira?
Ao ler as revistas especializadas sobre ensino, educação e escola, principalmente a publicação Nova Escola, conhecemos relatos de práticas inovadoras e de sucesso. Mas seriam esses exemplos algo comum à realidade do Brasil como um todo?
Ao tomarmos a situação real das escolas perto de nós a realidade é outra. Os mesmos problemas de sempre, históricos, se repetem, governo após governo.  E os resultados do Brasil em testes internacionais, como o PISA, são apenas a confirmação de que a escola pública agoniza:  o país está em 55º no ranking de leitura, 58º no de Matemática e 59º no de Ciências (num total de 65 países).
Nada disso é novidade. Novidade seria caso alguém detivesse a solução mágica para tal situação preocupante.
Mas soluções mágicas não existem, sabemos. O que se pode fazer é atentar aos exemplos que dão certo. O canal Globo News exibiu esse ano uma série de documentários com o título “Educação.doc”. Neles podemos constatar que o que fez diferença e mudou de alguma forma as escolas retratadas para melhor foi um esforço conjunto: direções das escolas, professores, pais e alunos. Sim, isso já consta no planejamento das instituições, recomendações do governo e documentos oficiais. Acontece que, como invariavelmente ocorre também em outros cenários da vida pública, o que está no papel dificilmente se efetiva na prática. O diferencial dessas realidades mostradas nos referidos documentários é a vontade de mudar colocada em prática, com planejamento, organização e comprometimento de todos os envolvidos.
A educação pública precisa deixar de ser perfeita no papel, ela necessita urgentemente acontecer de verdade.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Salvando o mundo

    Acordei, numa manhã qualquer, com um desejo incrível de salvar o mundo. A rotina, o trabalho aparentemente comum, a falta de perspectivas levaram-me a e ter essa vontade irresistível, no melhor estilo "we are the world, we are the children".
     Acessei a organização Médico Sem Fronteiras. Poderia trabalhar como voluntária em algum país miserável da Africa, deleitando-me com a possibilidade de exultar minhas nobres virtudes altruísticas. Grande surpresa ao descobrir que auréola de santa e disposição para atravessar o Oceano Atlântico  não bastavam, para integrar tal equipe era necessária certa formação (medicina, psicologia, enfermagem). Além disso, deveria enfrentar uma seleção, caso fosse habilitada para tal desafio. Pois bem, desisti.
      Restava enfrentar meu mundinho, a escola. Eis que naquela tarde, como de costume, sou recepcionada com um beijo melado, no pátio do colégio, pela aluna Caroline. Ela mora, juntamente com sua mãe e três irmãos (e mais um a caminho) numa modesta casinha de três cômodos, sendo que nenhum tem cama, e todos se ajeitam como podem em apenas um colchão. Caroline tem deficiência mental leve e no início do ano letivo era incapaz de pular corda. Apesar do meu empenho e incentivo, a menina ficava sorrindo com olhar distante e movia minimamente os pés. Porém, depois de alguns meses, com insistência (e persistência) a menina conseguia pular coordenadamente contando até dez. Talvez por isso ela viesse todos os dias saudar-me com um beijo, como se declarasse que fiz algo de bom, de importante, por ela.
      Essa aluna mostrou-me que posso mudar o mundo diariamente, nos pequenos gestos que por vezes passam despercebidos. Que médicos sem fronteiras, que nada. Dá uma corda pra cá que eu faço a minha parte!

sábado, 15 de março de 2014

Escola pública: agonia, morte e... Esperança?



Escola pública: agonia, morte e... Esperança?

A escola pública brasileira agoniza há muito tempo. Situação conhecida de quase todos: alunos desinteressados, professores desmotivados, políticas públicas ineficientes, descaso, abandono, sucateamento... No ano passado, foi divulgada a classificação do Brasil no último teste de PISA (Programme for International Student Assessment - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).  Apesar de ter avançado timidamente nos últimos anos, nosso país ficou em 55º lugar no ranking das médias de leitura; em matemática, estamos em 58ª posição; em ciências, ocupamos o 59º posto (num total de 65 países participantes). Ou seja, um fiasco total.
            O governo, vendo a educação brasileira na “UTI", toma suas medidas paliativas. Um exemplo delas: o Pacto Nacional Pela Alfabetização na Idade Certa, maravilhosamente alardeado e maquiado pelo marketing das propagandas. Esse ano vem aí sua versão para o Ensino Médio. Acontece que paciente de UTI é complicado e nem sempre medidas paliativas resolvem. Nesse cenário sofrem todos: os professores, os alunos e a sociedade.
             Resta constatar, assim como quando temos um parente em estado terminal, sofrendo, não existindo mais alternativas ou esperanças de recuperação: melhor morrer.
              A escola pública precisa morrer, ser sepultada, enterrada. Fim.
            O modelo educacional adotado até agora não vingou. Não é necessário recorrer a índices, estatísticas e testes internacionais para concluir isso. A realidade está escancarada e evidente aos que querem enxergá-la. No final de 2013 uma reportagem do jornal Zero Hora demonstrou essa realidade, acompanhando o cotidiano de uma turma de Ensino Médio na tradicional Escola Júlio de Castilhos – o Julinho. A repercussão da reportagem provocou uma busca pelos "culpados" pela situação. Acontece que quando o assunto é educação, todos têm um culpado para apontar, mas poucos têm a disposição de refletir sobre o tema e buscar soluções coletivas.
            Talvez se fôssemos uma cultura do diálogo e não da radicalização, pudéssemos chegar a alguns pontos fundamentais para que, aos poucos, surja uma nova escola pública no Brasil. Sendo a típica brasileira que adora opinar sobre quase tudo ( creio que sobre esse assunto tenho leituras e experiências suficientes para ousar opinar), sugiro algumas ideias:
1 – Colocar o discurso bonito em prática. Sabemos o que dá certo. Lemos Paulo Freire, Emilia Ferreiro, Telma Weisz, Morin, Magda Soares e tantos outros. Caso conseguíssemos concretizar, em nosso fazer pedagógico, metade do que sabemos, falamos, discursamos, já estaríamos elevando o nível do ensino. Coerência, mais coerência. Não basta constar no Projeto Político Pedagógico das escolas que almejamos formar “cidadãos críticos e conscientes” se nossos alunos são analfabetos funcionais. Aproximar o real do ideal. Difícil, mas não impossível.
2 – Professores comprometidos. Posso cursar uma pós-graduação, participar de formações continuadas, assistir a diversas palestras sobre educação, e, apesar disso, minha prática pode continuar sendo deficiente, ou ineficiente, se não estou comprometida com o processo de ensino-aprendizagem. Não estou falando de “vocação” ou “dom” para ensinar, mas sim de profissionais conscientes de sua importância e engajados no dia-a-dia da escola. No entanto, se a própria sociedade e os governos desvalorizam o professor, fica difícil exigir comprometimento. Um dilema a ser superado.
3– A escola como forma de superação e aperfeiçoamento individual. Quem nunca se sentiu bem ao aprender algo novo,  quando superou uma grande dificuldade ou limitação pessoal? Aquele que aprende sente-se capaz, valorizado, tem sua autoestima elevada. Curiosidade, descoberta e pesquisa devem ser contrapontos à inércia, passividade e reprodução características do ensino em geral. Uma escola inovadora na qual os alunos sintam prazer de aprender (e não alívio quando ouvem o sinal no horário da saída).
4- Conhecer, divulgar e adotar práticas educacionais relevantes e eficientes. Apesar da crise quase generalizada, há bons exemplos. A Fundação Victor Civita premia anualmente os “10 melhores educadores” selecionados dentre milhares de participantes que enviam seus projetos e práticas pedagógicas. Quem foram os dez ganhadores de 2013? Que trabalhos os professores premiados desenvolveram? Que características seus projetos tinham? Esses projetos podem ser aplicados ou adaptados a outras realidades? Não são apenas as crianças que aprendem através de exemplos, nós, educadores, precisamos estar atentos às práticas de sucesso e que comprovadamente resultam em aprendizagem.
5 – Mais eficiência na gestão e aplicação de recursos.  Quem está dentro da escola pública sabe das dificuldades diárias: falta de bibliotecas, de laboratórios de Ciências e Informática, alunos praticando Educação Física debaixo de um sol escaldante, livros didáticos insuficientes... Quando se fala em Plano Nacional de Educação (PNE, aprovado em 17 de dezembro de 2013) e suas vinte metas, há que se atentar para problemas históricos que, caso não sejam resolvidos, impedirão os avanços almejados. Porque planos, metas e objetivos são concretizados quando existem condições favoráveis para tal. Sem falar que nas transições de governos sempre se volta à estaca zero. Quando um novo governo assume, vem junto um novo pacote para a Educação, e não importa o quanto se tenha avançado nos anos que passaram, não se faz uma avaliação para manter os bons programas e modificar o que precisa ser modificado. A Educação de um povo precisa estar acima de interesses políticos. Além de professores comprometidos, governos comprometidos.
        Obviamente as ideias expostas acima são decorrentes de algumas reflexões como professora numa escola pública estadual. Não estou tentando inventar a roda. Acredito que não há soluções mágicas e que apenas um esforço conjunto entre sociedade e governo seja capaz de criar condições para uma nova escola pública. Porque, como diz o ditado, a esperança é a última que morre.




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