sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Feliz 2014! Sem beijinho no ombro, por favor!




             Para quem encerrou 2013 tendo os ouvidos torturados pelo “Prepara” da cantora Anitta (digo, artista fabricada pela Rede Globo) e torcendo que em 2014 a música brasileira melhorasse um pouquinho, tenho uma terrível notícia: seus problemas apenas começaram.
             O vídeo da música “Beijinho no ombro”, da funkeira Valeska Popozuda, alcançou mais de um milhão de acessos em apenas dois dias, neste ano que inicia. Vejamos a primorosa letra da instantaneamente famosa “canção”:

“Desejo a todas inimigas vida longa
Pra que elas veja (sic) cada dia mais nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Aqui dois papos não se cria (sic)  e nem faz história

Acredito em Deus e faço ele de escudo
Late mais alto que daqui eu não te escuto
Do camarote quase não dá pra te ver
Tá rachando a cara, tá querendo aparecer

Não sou covarde, já tô pronta pro combate
Keep Calm e deixa de recalque
O meu sensor de periguete explodiu
Pega sua Inveja e vai pra…
(Rala sua mandada)

Beijinho no ombro pro recalque passar longe”

        Obriguei-me a assistir ao vídeo, mouse na mão direita e na esquerda uma cartela de antidepressivos, prestes a cometer suicídio (brincadeirinha). Constato que o vídeo é melhor que a música: de tão ridículo, chega a ser cômico. Enquanto ria como uma hiena desvairava, torcia para aquele tigre arrancar um naco do silicone chacoalhante da Popozuda.
        Para quem é fã de Pink Floyd, Rolling Stones e Pearl Jam, e mais, passou a adolescência curtindo Legião Urbana, ouvir um negócio desses é um sacrilégio. Podem dizer: é só não escutar, se não gosta. Não é tão simples. Tenho um triste pressentimento que meus pobres ouvidos serão expostos ao refrão grudento dessa música durante os 200 dias letivos de 2014. Os alunos adoram esses sucessos instantâneos que a mídia produz.
        Então, prepara! Que venham Valeska, Copa e eleição. O novo ano promete muito pão e circo ao povão.
          Só escutando muito rock e Renato Russo para aguentar.
       Em tempo: essas são apenas as reflexões de uma professora que gosta de ler e escrever, não-popozuda e sem silicone. Ou seja, recalque, puro recalque minha gente.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Schopenhauer, Whitman, Vedder... Para terminar o ano!




             Mais um ano que chega ao final. Juntamente com os preparativos para as festas, malas feitas para viagem, ansiosos pelas merecidas férias, vem as inevitáveis promessas de ano-novo. Emagrecer, aprender uma nova língua, iniciar (e manter ) uma atividade física, cuidar da alimentação, dedicar mais tempo para a família, reformar a casa, comprar um carro novo, e muitos outros desejos e intenções que muitas vezes não são concretizados. Li em algum jornal, creio que foi o David Coimbra que afirmou, que deveríamos desejar ter menos desejos. Difícil. Somos uma raça (a raça humana) cada vez mais insatisfeita. Essa reflexão me fez recordar a teoria do filósofo Schopenhauer:

"A vida oscila como um pêndulo, para trás e para dian­te, entre o desgosto e o tédio."

           Para esse filósofo, o ser humano está fadado à contínua infelicidade e insatisfação, pois, condicionado a desejar infinitamente, assim que conquista o objeto do seu desejo, logo é acometido pela frustração (ou tédio). A vida funcionaria, nessa visão, como um pêndulo entre o desejo e o tédio. Quanto mais o ser humano deseja, mais infeliz fica. Quando analisamos as promessas de ano novo à luz da teoria de Schopenhauer, não há como negar que ele tem razão.
           Não posso deixar de acrescentar um trecho da  letra da música “Society”, de Eddie Vedder, presente no filme Into the wild (o filme, inspirado no livro homônimo, conta a história real de um rapaz americano de classe média alta que larga tudo o que tem para viver na pobreza e em contato com a natureza):

“É um mistério para mim
Nós temos uma ambição que concordamos.
E você pensa que você tem que querer mais do que precisa.
Até você ter tudo, você não estará livre.”

            E nunca estaremos livres, pois nunca teremos tudo, e, mesmo que tivéssemos, não bastaria. Aí entra o grande poeta Walt Whitman:

         “Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,  e disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
         E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.”

          Nos resta prosseguir no caminho, quem sabe desejando menos, fazendo promessas que possam ser cumpridas, buscando o que realmente importa - tentando descobrir o que realmente nos faz seres humanos felizes e realizados!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Afasta de mim esse “cale-se”



             Vivemos num país em que existe liberdade de expressão, no qual cada um tem o direito de exprimir suas ideias e pensamentos utilizando a palavra falada ou escrita. Num passado recente, não era assim. Sabemos que muitos morreram durante o período da ditadura militar tentando expor o que pensavam. Frequentemente escuto pessoas cultas, estudadas, recorrerem ao discurso que  afirma “se a ditadura voltasse, acabava essa bandalheira na TV e na internet”.
            No entanto, a ditadura censurava não só programas, filmes, livros. Ela simplesmente não aceitava quem pensava diferente. Mas nossa sociedade atual,  dita democrática, também tem espaço para seus censores.
            A polêmica das biografias, que veio à baila  recentemente, deixa clara essa questão.Os cantores Caetano Veloso, Roberto Carlos e companhia, antes artistas tão preocupados com a liberdade de expressão, no presente revelam-se apavorados com a possibilidade de suas vidas serem esmiuçadas e escancaradas por biógrafos gananciosos... E todo o debate, programas de TV, artigos, reportagens decorrentes da situação. Como diria Augusto Branco : “As pessoas gostam do ideal de liberdade de expressão até o momento em que começam a ouvir aquilo que elas não gostariam que dissessem a respeito delas.”
          Mas, fugindo desse assunto já tão debatido: qualquer cidadão brasileiro tem o direito, dentro do regime democrático, de expressar suas ideias e opiniões, direito esse assegurado pela Constituição Brasileira. E muitos o fazem através da internet, dos blogs, sites, Facebook e Twitter. Porém, isso não significa que a pessoa que fala o que bem entende esteja isenta do preconceito, censura e retaliação da sociedade.
           Explico. No ano de 2005, vivenciei uma situação extremamente incômoda na escola em que lecionava, por não concordar com algumas estratégias pedagógicas impostas pela direção. Sem citar nomes nem ofender ninguém, escrevi e publiquei um artigo intitulado “Sobre educação” no jornal do município. Obviamente, alguns calos foram pisados. E muitas colegas queriam que eu fosse sutilmente expulsa da escola apenas por escrever sobre o  que pensava ser uma educação libertadora, crítica e necessária.
            Pois bem, esse ano, novamente fui alvo de "censores" que não gostaram do que escrevi sobre um episódio ocorrido na Feira do Livro da cidade. Meus alunos foram barrados e não puderam conhecer uma determinada autora, pois uma parte do evento seria limitada às escolas do município (escrevi sobre isso num outro post desse blog). Dessa vez, mesmo não tendo identificado em qual escola trabalhava, sobrou até para minha diretora, que recebeu uma advertência de um representante do poder público municipal, um legítimo “puxão de orelha”. A situação seria cômica, se não fosse antes disso ridícula. Na farmácia que inevitavelmente frequento toda a semana, uma atendente me abordou e disse que havia lido a "nota" que escrevera no jornal. O comentário dela: "É chato, né?"Até agora estou pensando se ela se referia ao fato que originou minha manifestação ou se ela falava que é chato escrever sobre isso. De todo modo, acredito que se existisse o prêmio "Mala do Ano" na cidade eu ganharia, sem dúvida.
            Quem tem coragem de assumir o que pensa paga o preço. Pensar é chato.Quem fala o que pensa (ou escreve) inevitavelmente acumula muitos inimigos ao longo dos anos. Porque nem sempre as pessoas querem ouvir o que é dito  ou estão dispostas a debater algo com propriedade, civilidade e responsabilidade.  Não sei o que é pior: o veto oficial à liberdade de expressão, como acontecia nos tempos da ditadura, ou uma democracia de faz de conta, na qual as pessoas só estão dispostas a ouvir o que lhes agrada.
               "Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la" (Voltaire).




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Inveja de Bruna Surfistinha

          Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, como todos sabem, é uma ex-prostituta que alcançou a fama ao criar um blog, posteriormente transformado em livro, relatando suas peripécias sexuais no mundo da prostituição. "O Doce Veneno do Escorpião" vendeu 250 mil cópias só no Brasil, fazendo sucesso também em Portugal e na Espanha. Além disso, virou filme, estrelado pela atriz global Débora Secco.
        Sexo, prostituição e pornografia são assuntos que repercutem e dão muito dinheiro.Não é à toa que livros, filmes e principalmente programas de TV estão recheados deles.  E não só no Brasil: em 2011,"50 Tons de Cinza" vendeu cerca de dez milhões de cópias nas primeiras seis semanas de divulgação, (um romance no melhor estilo água com açúcar que tenta parecer ousado abordando o sadomasoquismo), alcançando o topo das listas de mais vendidos, aqui e no exterior.
           Aliás, o ranking de mais vendidos da Revista Veja dá uma dimensão da literatura consumida em nosso país. O tema religião está presente em muitas obras do gênero não-ficção. Autores como Padre Marcelo Rossi, Fábio de Mello e o Bispo Edir Macedo vendem muito. Sim, Macedo, o proprietário da Rede Record e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, emplacou o primeiro lugar da lista este ano, com seu "Nada a Perder 2". Ele, que costuma persuadir seus fiéis seguidores a pagar o dízimo com frases do tipo "ou dá ou desce". Este senhor e os padres citados diferem da "escritora" Bruna não apenas na temática escolhida para suas obras. Antes de publicarem, eram eles pessoas já bem conhecidas, até mesmo famosas (e poderosas, no caso do bispo), diferentemente da ex-prostituta. Quando alguém compra um livro deles, está automaticamente (ainda que inconscientemente) comprando um nome, um personagem, ou melhor,  a imagem que tem do autor. O conteúdo, as ideias, são aspectos secundários.
          Pois é. Na terra de Valeska Popozuda e Bárbara Evans, no país em que, no passado recente, o programa de maior audiência veiculado pela TV aberta aos domingos era "A Banheira do Gugu", num lugar no qual o concurso "Miss Bumbum" é um evento anual alardeado pela mídia, só mesmo sendo Bruna Surfistinha para passar do anonimato total à posição de escritora best-seller. Que inveja!

domingo, 10 de novembro de 2013

Teoria que amanhece o dia e (quase) vira poesia

          Albert Einstein acordou, numa determinada manhã, em 1905, com vontade de criar. Parece que foi assim: " Relatividade? Como não pensei nisso antes?" E elaborou a revolucionária Teoria da Relatividade. Dizem que com Newton e Darwin foi igual.
         A ideia acima é totalmente surreal, absurda e inventada. Mas não podemos negar que existem pessoas que, mesmo inconscientemente, acreditam nela. Como se teoria fosse sinônimo de inspiração mágica. E algo bem enfadonho. Quando o cérebro dessas pessoas decodifica a palavrinha de seis letras - teoria - a memória que emerge é a do professor mais chato da época da Universidade. Portanto, teoria é um mal desnecessário e totalmente dispensável. Coisa de quem não tem o que fazer, ou melhor, tem tempo de sobra. Chega-se ao discurso: "Já conhecemos a teoria. Ela não serve para nada. Vamos à prática."
         E o que é a prática? As pessoas, as coisas, os objetos, os animais, acontecimentos ou fatos: o mundo, enfim. O mundo é a prática. A teoria busca explicar o mundo; logo, tenta compreender o que está nele.
        Aqui aparece a turma que gosta de explicar: os teóricos. São muitas questões para responder. Os mais ambiciosos ou profundos querem descobrir se Deus existe ou provar a origem da vida. Há os que buscam compreender a lógica por trás do consumismo. Tem os que indagam o futuro da escola, do livro e da família. E, como não poderia deixar de ser, os mistérios cotidianos também provocam. Por exemplo, por que motivo o Totozinho fica dando voltinhas no mesmo lugar antes de deitar e dormir?
          Mas há algo em comum em todas as teorias. Busca-se o entendimento do mundo. Muitas delas causaram (e causam) mudanças incontestáveis. São as teorias revolucionárias, resultantes de inspiração, sim, mas que sem trabalho e esforço, não vingariam. O próprio Einstein, em sua célebre frase, disse:
"O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário." Mas também conhecemos outros exemplos totalmente absurdos, frutos de pesquisas desnecessárias, que mais complicam do que explicam.
         Porém, ao contrário do que alguns pregam, as teorias são necessárias. Mais que isso: são fundamentais. Não caem do céu, nem surgem do nada. Demandam empenho, dedicação, seriedade, inovação e ousadia. Podem até ser contestadas, mas não negadas.
         Na época em que vivemos, reina a superficialidade. Estamos cada vez mais nos habituando ao conhecimento fragmentado, ao efêmero. Poucas pessoas se aventuram na complexidade teórica. Basta ter um perfil no Facebook, acompanhar as novelas, conversar sobre a nova moda para o verão ou lançamentos automotivos. Qualquer discussão mais aprofundada é evitada. Dá a impressão que a palavrinha de seis letras tem um link direto no cérebro de alguns, que direciona para outra palavra - chatice. 
        Epa! Melhor parar, ou corro o risco de criar algo memorável. Desconfio de que fui contaminada com o vírus da teoria que amanhece o dia. Amanheci assim, criando teoria, da noite pro dia. Seria esquizofrenia? Ainda que tardia? Agora chega, já está virando poesia.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Feira do Livro (Para quem pode)


Felicidade incomum

         Depois de um dia comum, trabalho na escola, em casa, compras no mercado, subindo as escadas para chegar ao apartamento, escuto um piado insistente vindo do sótão. Cansada, entro e sento-me uns instantes. O barulho persiste. Jantar quase pronto, os filhos pedindo isso e aquilo, até que não aguento mais e resolvo verificar que criatura é a causa do ruído tão estridente. Abro a porta do sótão (sim, no apartamento onde moro existe um) e vejo um pequeno pássaro, filhote, de olhos brilhantes, no escuro. Fita-me, amedrontado. "Vou ter que te tirar daí" - penso. Pego uma luva, dessas de forno, toda acolchoada, e parto para o resgate. Acomodo o bichinho na mão. Mas logo ele ensaia um voo breve e foge. Vai pra dentro de casa. As crianças acham lindo. Escolhiam até um nome pro dito cujo, por isso, rapidamente, digo que vou soltá-lo. Mas ele corre, com aquelas pernas desajeitadas, ainda maiores do que as asas, deixando pluminhas ralas pelo caminho.Insisto, ele se debate, voa mais um pouco, vai para a escada do prédio. Até que consigo levá-lo ao terreno dos fundos, onde há um pomar. Coloco-o no chão e logo aparece um casal de pássaros da mesma espécie (pardais, imagino). Ignorando o fato de que o pestinha emplumado poderia ser devorado por algum dos gatos que costumam zanzar por ali, prefiro acreditar que conseguiu voar até uma árvore suficientemente alta, sendo livrado do fim precoce. Ou que seus possíveis parentes o resgataram. Terminei o jantar sentindo uma felicidade inesperada. Afinal, nem sempre temos a oportunidade de dar uma chance a outra vida.
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