sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Nativos e excluídos digitais





              Em outubro de 2013 a União Internacional das Telecomunicações (UIT, órgão da ONU) divulgou que o Brasil é o país que possui a quarta maior população do mundo de nativos digitais - jovens que cresceram familiarizados com as novas tecnologias, computadores, internet, celulares, etc. Apesar dessa colocação, sabe-se que grande parte da população brasileira não tem acesso ao mundo digital, algo que ocorre também em outros países em desenvolvimento.  O mesmo UIT afirma que o custo da internet em nosso país é um dos mais caros do mundo. Ou seja, a exclusão digital está ligada ao desenvolvimento econômico.
             Num mundo altamente competitivo e que exige o domínio das novas tecnologias, mais uma vez as pessoas de classes menos favorecidas são colocadas em desvantagem. Como afirma, de forma bastante pertinente, Leo Dantas:
"Ser um excluído digital não significa apenas desconhecer a informática básica. Significa estar excluído de um mundo de informações e possibilidades que desenvolvem a capacidade cognitiva do ser humano. Não ter acesso e não dominar as novas tecnologias da era da informação é tão prejudicial para o desenvolvimento intelectual quanto ser analfabeto funcional. Os excluídos nos dois casos ficam à margem de todas as possibilidades de desenvolvimento pessoal.
As oportunidades dos incluídos são bem maiores do que os que vivem o apartheid digital. Para se obter um emprego, cada vez mais é preciso ter destreza no uso do computador e dominar as tecnologias da Internet. De que adianta uma secretária que sabe editar um texto no Word se não sabe enviar o texto anexo por e-mail? Concursos públicos para todas as áreas de nível médio e superior já exigem conhecimentos de Internet, confirmando a necessidade do domínio das novas tecnologias da informação e das comunicações para o trabalho." (Extraído do Blog de Leo Dantas)
        Nesse contexto surge a escola, uma escola que parece ter parado no tempo, como se estivesse dentro de uma redoma de vidro que a impede de acompanhar a evolução da sociedade. Em última instância, podemos dizer que temos uma escola do século XIX em pleno século XXI. Os governos de modo geral vêm tentando democratizar o acesso aos computadores e a internet oferecendo às escolas laboratórios de informática, tablets e lousas digitais. Grande parte dos educadores se esforça para integrar o uso desses recursos nas aulas. Outros relutam em aderir às novas tecnologias. É difícil romper com velhas práticas educativas e a consequente segurança que proporcionam. Há um grande conflito de gerações no qual os adultos (e professores) ficam constrangidos perante o fato de que crianças e jovens nativos digitais sabem muito mais sobre computador e internet do que os adultos. Eles são o resultado da Revolução Digital. Porém, como foi dito anteriormente, há uma grande parcela da população brasileira que está à margem dessa Revolução. É justamente para os alunos que estão entre os excluídos digitais que a escola e o professor representam uma oportunidade de inclusão.
         No entanto, práticas educativas que utilizem de forma sistemática e efetiva as novas tecnologias são tímidas e insuficientes. Os obstáculos para uma nova forma de ensinar começam nos cursos de formação de professores e depois na formação continuada dos mesmos.  A Era Digital exige profissionais capacitados para ensinar tanto àqueles que sabem mais (os nativos digitais) quanto àqueles que estão excluídos digitalmente. Mas, até agora, parece que as escolas em geral não têm dado conta do recado.
         O desafio é enorme. Mas não podemos desconsiderar o fato de que o modelo de escola que temos, com práticas de ensino que remetem ao século XIX, está ultrapassada, fadada ao fracasso e precisa ser superada. Se o que almejamos é diminuir a desigualdade social e formar cidadãos conscientes, atuantes, capacitados para enfrentar um mundo exigente, precisamos urgentemente transformar nossa prática educativa, utilizando as novas tecnologias efetivamente no dia a dia da escola. É óbvio que a escola e o professor sozinhos não farão nenhum milagre, visto que é a própria exclusão social que provoca a exclusão digital. Mas todo esforço é válido. Dessa forma, estaremos contribuindo para a inclusão digital e melhorando a aprendizagem dos nossos alunos.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Uma leitura de arrepiar a alma





             Acabo de ler um livro extraordinário, daqueles que nos envolvem completamente da primeira à última linha: “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex. Nele, conheci fatos chocantes, terríveis, que constituíam o cotidiano de um manicômio localizado na cidade mineira de Barbacena.
             O livro surpreende primeiramente pelo estilo narrativo. A autora, jornalista, optou por não apenas contar o que pesquisou e presenciou, mas imprime ao texto características de romance, reproduzindo diálogos e acontecimentos de forma criativa e emocionante (sem, contudo, distanciar-se da veracidade). Daniela literalmente mergulhou nas histórias de ex-pacientes do Hospital Colônia  ( inaugurado em 1930 e que ainda continua parcialmente ativo) e de seus parentes, dos funcionários e médicos que passaram pela instituição.
                À medida em que folheava as páginas, ficava ansiosa por saber mais daquelas tristes e verdadeiras histórias. Todos nós temos uma imagem (comumente nada agradável) do que pode existir em um manicômio, mas os exemplos citados no livro são surpreendentes. Grande parte dos rotulados “loucos” eram apenas pessoas indesejáveis: mulheres que os maridos não queriam mais; meninas que engravidavam e precisavam de um “destino” anônimo; portadores de epilepsia; crianças apáticas; pessoas que haviam perdido seus documentos; homossexuais; desajustados... Enfim, todos aqueles que, de certa forma, incomodavam alguém.
             O “tratamento” pelo qual essas pessoas passavam está bem demonstrado no livro. Nesse ponto fica clara a comparação ao holocausto dos judeus. A fome, pouco amenizada pela comida servida que mais parecia lavagem para porcos; o frio, intensificado pela nudez dos internos; a negação da identidade dos pacientes, que eram “rebatizados”pelos funcionários com nomes fictícios e privados de sua própria história. E muitas outras histórias chocantes que tornam a leitura do livro algo que demanda coragem. Mais coragem ainda a autora precisou para escrevê-lo. Deixando um filho de apenas quatro meses em casa, iniciou a investigação, pesquisando, entrevistando, buscando informações. Antes de chegar ao livro, produziu uma série de reportagens sobre o manicômio.
            Esse livro merece ser lido por outro aspecto: a questão da indiferença. O manicômio funcionou durante décadas, sendo mantido pelo governo, administrado por diversos médicos, contando com a ajuda da igreja católica, sem que houvesse um questionamento sobre os métodos desumanos adotados no “tratamento” dos internos. A situação se perpetuou devido à omissão daqueles que poderiam ter dado um basta ao inferno institucionalizado. Alguns tentaram fazer isso, mas, é claro, sofreram ameaças, retaliações e foram demitidos. A autora demonstra que, paralelamente à indiferença da maioria das pessoas que administraram e trabalharam no local, havia exceções. Uma funcionária comprava leite em pó utilizando seu próprio salário e distribuía em segredo às crianças famintas. Outras, anos mais tarde, com o movimento para o fechamento dos manicômios e transição para formas diferentes de atendimento, optaram por morar junto aos “doidos”, nas residências terapêuticas. Na fala dessas pessoas, que não conseguiram ficar indiferentes à dor, à solidão e ao sofrimento alheios, uma constatação: os ditos anormais são capazes de oferecer mais carinho, solidariedade e respeito do que muitos de nós considerados normais.
           Que contribuição um livro como esse pode trazer para nossas vidinhas confortáveis e bem ajustadas? Por que ler sobre algo que parece estar superado, que ficou no passado? Porque a mensagem que fica é a de que nossa indiferença frente ao sofrimento e dor alheios pode nos transformar em monstros, provocar ou manter tragédias, injustiças e humilhações que deveriam ser evitadas. Enfim, uma leitura que provoca arrepios na alma, por abordar o que o ser humano tem de pior, mas também por lembrar-nos o que podemos ter de melhor.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A indústria cultural: uma possibilidade de formar alunos críticos e conscientes




         A indústria cultural, anteriormente denominada “cultura de massa”, é aquela que atinge a maioria da população, através de veículos como a televisão e o rádio. Utilizando esses meios de comunicação, as novelas, músicas e artistas, jogadores de futebol, apresentadores de programas de auditório, moldam costumes, estimulam o consumismo, o culto à beleza e à juventude, enfim,  legitimam os valores da sociedade moderna. Na mídia testemunhamos a ascensão e o ostracismo súbitos das celebridades, dos sucessos musicais de gosto duvidoso alardeados repetitivamente, constatamos o culto ao efêmero e o elogio à futilidade. Pergunte a uma aluna de sete anos o que ela gostaria de ser no futuro. Possivelmente a resposta obtida será: “modelo, atriz, cantora”. E os meninos? Jogador de futebol, uma quase unanimidade. Letras de músicas como a que reproduzo a seguir “grudam” na memória dos alunos:

“Eu não tô de brincadeira, eu meto tudo, eu pego firme pra valer
Chego cheio de maldade
Eu quero ver você gemer
Eu te ligo e chega a noite, vou com tudo e vai que vai
Tem sabor de chocolate o sexo que a gente faz”
(Naldo – Amor de chocolate)

                 Não se trata de repudiar ou condenar o gosto musical ou preferências dos alunos. Pelo contrário, o professor precisa adotar uma postura de respeito, sem condenar. No entanto, a escola não pode ficar isenta do seu papel, afinal de contas, está expresso em sua filosofia que “o objetivo é formar cidadãos críticos e conscientes capazes de atuar na sociedade”. Penso que quando uma criança repete um refrão do tipo “Eu quero tchu, eu quero tchá”, não está de forma alguma pensando sobre as palavras que pronuncia. Da mesma forma, constatar que nossos alunos estão cada vez mais consumistas, que o supérfluo toma o espaço do necessário, que as relações passam a ser descartáveis, e não ajudá-los numa tomada de consciência a respeito, é um crime. Partindo da leitura das letras de músicas que estão “bombando”, passando pela reflexão e discussão, chegando a conclusões que jamais as crianças e jovens chegariam (sem a mediação da escola e do professor), percorrendo esse caminho, só assim temos a possibilidade de vislumbrar um futuro diferente para o nosso país.
           Por exemplo, no ano de 2013, a funkeira Anitta fez um enorme sucesso na mídia, tendo a música a seguir incluída na trilha sonora de novela da Rede Globo:

“ Prepara, que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam
Afrontam as fogosas
Só as que incomodam
Expulsam as invejosas
Que ficam de cara quando toca
Prepara”

           Ao ouvir esse tipo de música sendo cantada por alunas de oito, nove anos, questiono: que mensagem fica no inconsciente das meninas? Que mulher é essa, poderosa, vencedora porque “tem corpo”? Nessa visão, só aquelas consideradas bonitas, desejáveis, gostosas, têm chance de sucesso. Obviamente não podemos proibir que cantem, mas temos a possibilidade de indagar: “o que você entende dessa música, onde ela é cantada, quem é a pessoa que compôs, porque faz sucesso...” Talvez, aos poucos, os alunos consigam um certo distanciamento, uma forma diferente de ver e realmente enxergar o que está por trás dessa cultura tão massificada, que precisa ser questionada. Portanto, a leitura e análise de músicas “do momento”, com o objetivo de questionar estereótipos, preconceitos, valores tão inculcados no imaginário das pessoas, é extremamente necessária, diria até indispensável.
             Por fim, há tantos exemplos de músicas brasileiras de qualidade, com letras inteligentes, que podem ser utilizadas nas aulas. Um exemplo é o extinto e conhecido grupo Legião Urbana, famoso pela crítica social em suas composições, feitas, algumas, há mais de vinte anos. Um trecho da música “Perfeição” lembra o que ainda acontece, diariamente, em nosso país:
Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
         Um contraste enorme entre esse exemplo e as “criações” do funk  e de alguns compositores atuais. Essa comparação precisa ser feita em nossas aulas; a escola necessita tornar-se um espaço de reflexão e conscientização constante.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mandela e cinema: para começar bem o ano



          Nelson Mandela faleceu em 2013. Mandela dispensa explicações e comentários. Curiosamente, alguns dias após o falecimento do líder sul-africano, assisti ao filme “Repórteres da Guerra”. O filme conta a história real de um grupo de fotógrafos da África do Sul, que ficou conhecido mundialmente como “Clube do Bang-Bang”.  A principal motivação para assisti-lo foi a ânsia de saber mais sobre a vida de Kevin Carter, um dos componentes do referido grupo que fez a famosa foto de uma criança africana faminta (foto vencedora do Prêmio Pulitzer), quase morta, tendo às suas costas um abutre prestes a entrar em ação. Kevin foi massacrado publicamente por não ter ajudado a criança que morria de fome e cometeu suicídio pouco tempo depois. De fato, fiquei conhecendo mais sobre ele e também a respeito do companheiro Greg Marinovich, agraciado também pelo mesmo Prêmio, mas por ter registrado com sua câmera um fato terrível: o assassinato de um suposto membro do Partido da Liberdade Inkatha pelos apoiadores do Congresso Nacional Africano (o homem foi queimado e depois decapitado). Até assistir ao filme, eu sabia muito pouco sobre a história da África do Sul. E foi por causa do que assisti que pesquisei, li e aprendi muito sobre o assunto, em pouco tempo. Senti uma certa vergonha da minha própria ignorância em relação ao Mandela, um dos maiores líderes mundiais conhecidos, agraciado com um Nobel, exemplo para todos nós.
           Mas, para minha surpresa, a aprendizagem e descobertas sobre a história da África do Sul seriam ampliadas através de outro filme, tocante, espetacular, emocionante: Borboletas Negras. O filme conta a história da poetisa Ingrid Jonker, uma escritora sul-africana que viveu no período do  Apartheid – regime de segregação racial vigente de 1948 a 1994. Ela viveu uma relação conflituosa com seu pai, que era membro do Partido Nacional do Parlamento, extremamente rígido e odiosamente racista. Ingrid era o contrário do pai e esse confronto ideológico acirrava ainda mais o relacionamento dos dois. Ela suicidou-se em 1965, dando fim a uma vida intensa e angustiada. Em 1994, quase trinta anos após sua morte, Nelson Mandela leu o poema de Ingrid,  “A Criança que foi Assassinada pelos Soldados de Nyanga”, no seu primeiro discurso como presidente da África do Sul. Depois de assistir ao filme, fui imediatamente pesquisar sobre a autora. Descobri que a Wikipédia não dispunha da sua biografia em português. O livro de poemas dela também não está disponível em nossa língua. Consegui ao menos a tradução integral do poema lido por Mandela em 1994. Assim como chorei várias vezes durante o filme, não consigo conter as lágrimas os ler as seguintes palavras:

A criança não está morta

A criança levanta seu punhos contra sua mãe
Que grita África!
Grita o fôlego/De liberdade e das planícies
Nos lugares do sitiado coração
A criança levanta seus punhos contra seu pai
Na marcha das gerações
Que grita África!
Grita o fôlego/Da justiça e do sangue
Nas ruas do batalhado orgulho
A criança não está morta, nem em Langa, nem em Nyanga
Nem em Orlando, nem em Sharpeville
Nem nas delegacias em Philippi
Onde jaz com uma bala em seu cérebro
A criança é a negra sombra dos soldados
em guarda com rifles sarracenos e bastões
A criança está presente em todas assembleias e tribunais
A criança vaga através das janelas das casas e por entre os corações das mães
A criança que apenas queria brincar ao sol de Nyanga está em todo lugar
A criança que cresceu para ser homem vaga por toda África
A criança, tornada em um gigante, viaja por todo o mundo
Sem um passe

       Esqueci de mencionar: a brilhante poetisa escreveu esse poema após testemunhar o assassinato de uma criança negra pela polícia africana (branca)
      Bem, só tenho a agradecer ao cinema (refiro-me a pequena parcela de bons filmes, de conteúdo relevante, geralmente feitos com pouco dinheiro, diferentemente das asneiras típicas de Hollywood, que custam milhões de dólares) por ser uma fonte de conhecimento, de descoberta da história real e palpável, não aquela história fria e impessoal dos livros didáticos.
       Além disso, ao ler e estudar sobre os mais variados temas, convenço-me de que o que sei é apenas uma pequena partícula de conhecimento perdida no vasto mar da história (e da vida).


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Feliz 2014! Sem beijinho no ombro, por favor!




             Para quem encerrou 2013 tendo os ouvidos torturados pelo “Prepara” da cantora Anitta (digo, artista fabricada pela Rede Globo) e torcendo que em 2014 a música brasileira melhorasse um pouquinho, tenho uma terrível notícia: seus problemas apenas começaram.
             O vídeo da música “Beijinho no ombro”, da funkeira Valeska Popozuda, alcançou mais de um milhão de acessos em apenas dois dias, neste ano que inicia. Vejamos a primorosa letra da instantaneamente famosa “canção”:

“Desejo a todas inimigas vida longa
Pra que elas veja (sic) cada dia mais nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Aqui dois papos não se cria (sic)  e nem faz história

Acredito em Deus e faço ele de escudo
Late mais alto que daqui eu não te escuto
Do camarote quase não dá pra te ver
Tá rachando a cara, tá querendo aparecer

Não sou covarde, já tô pronta pro combate
Keep Calm e deixa de recalque
O meu sensor de periguete explodiu
Pega sua Inveja e vai pra…
(Rala sua mandada)

Beijinho no ombro pro recalque passar longe”

        Obriguei-me a assistir ao vídeo, mouse na mão direita e na esquerda uma cartela de antidepressivos, prestes a cometer suicídio (brincadeirinha). Constato que o vídeo é melhor que a música: de tão ridículo, chega a ser cômico. Enquanto ria como uma hiena desvairava, torcia para aquele tigre arrancar um naco do silicone chacoalhante da Popozuda.
        Para quem é fã de Pink Floyd, Rolling Stones e Pearl Jam, e mais, passou a adolescência curtindo Legião Urbana, ouvir um negócio desses é um sacrilégio. Podem dizer: é só não escutar, se não gosta. Não é tão simples. Tenho um triste pressentimento que meus pobres ouvidos serão expostos ao refrão grudento dessa música durante os 200 dias letivos de 2014. Os alunos adoram esses sucessos instantâneos que a mídia produz.
        Então, prepara! Que venham Valeska, Copa e eleição. O novo ano promete muito pão e circo ao povão.
          Só escutando muito rock e Renato Russo para aguentar.
       Em tempo: essas são apenas as reflexões de uma professora que gosta de ler e escrever, não-popozuda e sem silicone. Ou seja, recalque, puro recalque minha gente.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Schopenhauer, Whitman, Vedder... Para terminar o ano!




             Mais um ano que chega ao final. Juntamente com os preparativos para as festas, malas feitas para viagem, ansiosos pelas merecidas férias, vem as inevitáveis promessas de ano-novo. Emagrecer, aprender uma nova língua, iniciar (e manter ) uma atividade física, cuidar da alimentação, dedicar mais tempo para a família, reformar a casa, comprar um carro novo, e muitos outros desejos e intenções que muitas vezes não são concretizados. Li em algum jornal, creio que foi o David Coimbra que afirmou, que deveríamos desejar ter menos desejos. Difícil. Somos uma raça (a raça humana) cada vez mais insatisfeita. Essa reflexão me fez recordar a teoria do filósofo Schopenhauer:

"A vida oscila como um pêndulo, para trás e para dian­te, entre o desgosto e o tédio."

           Para esse filósofo, o ser humano está fadado à contínua infelicidade e insatisfação, pois, condicionado a desejar infinitamente, assim que conquista o objeto do seu desejo, logo é acometido pela frustração (ou tédio). A vida funcionaria, nessa visão, como um pêndulo entre o desejo e o tédio. Quanto mais o ser humano deseja, mais infeliz fica. Quando analisamos as promessas de ano novo à luz da teoria de Schopenhauer, não há como negar que ele tem razão.
           Não posso deixar de acrescentar um trecho da  letra da música “Society”, de Eddie Vedder, presente no filme Into the wild (o filme, inspirado no livro homônimo, conta a história real de um rapaz americano de classe média alta que larga tudo o que tem para viver na pobreza e em contato com a natureza):

“É um mistério para mim
Nós temos uma ambição que concordamos.
E você pensa que você tem que querer mais do que precisa.
Até você ter tudo, você não estará livre.”

            E nunca estaremos livres, pois nunca teremos tudo, e, mesmo que tivéssemos, não bastaria. Aí entra o grande poeta Walt Whitman:

         “Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,  e disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
         E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.”

          Nos resta prosseguir no caminho, quem sabe desejando menos, fazendo promessas que possam ser cumpridas, buscando o que realmente importa - tentando descobrir o que realmente nos faz seres humanos felizes e realizados!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Afasta de mim esse “cale-se”



             Vivemos num país em que existe liberdade de expressão, no qual cada um tem o direito de exprimir suas ideias e pensamentos utilizando a palavra falada ou escrita. Num passado recente, não era assim. Sabemos que muitos morreram durante o período da ditadura militar tentando expor o que pensavam. Frequentemente escuto pessoas cultas, estudadas, recorrerem ao discurso que  afirma “se a ditadura voltasse, acabava essa bandalheira na TV e na internet”.
            No entanto, a ditadura censurava não só programas, filmes, livros. Ela simplesmente não aceitava quem pensava diferente. Mas nossa sociedade atual,  dita democrática, também tem espaço para seus censores.
            A polêmica das biografias, que veio à baila  recentemente, deixa clara essa questão.Os cantores Caetano Veloso, Roberto Carlos e companhia, antes artistas tão preocupados com a liberdade de expressão, no presente revelam-se apavorados com a possibilidade de suas vidas serem esmiuçadas e escancaradas por biógrafos gananciosos... E todo o debate, programas de TV, artigos, reportagens decorrentes da situação. Como diria Augusto Branco : “As pessoas gostam do ideal de liberdade de expressão até o momento em que começam a ouvir aquilo que elas não gostariam que dissessem a respeito delas.”
          Mas, fugindo desse assunto já tão debatido: qualquer cidadão brasileiro tem o direito, dentro do regime democrático, de expressar suas ideias e opiniões, direito esse assegurado pela Constituição Brasileira. E muitos o fazem através da internet, dos blogs, sites, Facebook e Twitter. Porém, isso não significa que a pessoa que fala o que bem entende esteja isenta do preconceito, censura e retaliação da sociedade.
           Explico. No ano de 2005, vivenciei uma situação extremamente incômoda na escola em que lecionava, por não concordar com algumas estratégias pedagógicas impostas pela direção. Sem citar nomes nem ofender ninguém, escrevi e publiquei um artigo intitulado “Sobre educação” no jornal do município. Obviamente, alguns calos foram pisados. E muitas colegas queriam que eu fosse sutilmente expulsa da escola apenas por escrever sobre o  que pensava ser uma educação libertadora, crítica e necessária.
            Pois bem, esse ano, novamente fui alvo de "censores" que não gostaram do que escrevi sobre um episódio ocorrido na Feira do Livro da cidade. Meus alunos foram barrados e não puderam conhecer uma determinada autora, pois uma parte do evento seria limitada às escolas do município (escrevi sobre isso num outro post desse blog). Dessa vez, mesmo não tendo identificado em qual escola trabalhava, sobrou até para minha diretora, que recebeu uma advertência de um representante do poder público municipal, um legítimo “puxão de orelha”. A situação seria cômica, se não fosse antes disso ridícula. Na farmácia que inevitavelmente frequento toda a semana, uma atendente me abordou e disse que havia lido a "nota" que escrevera no jornal. O comentário dela: "É chato, né?"Até agora estou pensando se ela se referia ao fato que originou minha manifestação ou se ela falava que é chato escrever sobre isso. De todo modo, acredito que se existisse o prêmio "Mala do Ano" na cidade eu ganharia, sem dúvida.
            Quem tem coragem de assumir o que pensa paga o preço. Pensar é chato.Quem fala o que pensa (ou escreve) inevitavelmente acumula muitos inimigos ao longo dos anos. Porque nem sempre as pessoas querem ouvir o que é dito  ou estão dispostas a debater algo com propriedade, civilidade e responsabilidade.  Não sei o que é pior: o veto oficial à liberdade de expressão, como acontecia nos tempos da ditadura, ou uma democracia de faz de conta, na qual as pessoas só estão dispostas a ouvir o que lhes agrada.
               "Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la" (Voltaire).




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